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terça-feira, 16 de junho de 2015

o remorso de baltazar serapião - valter hugo mãe [Opinião]

Título: o remorso de baltazar serapião
Autor: valter hugo mãe
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 280
Editor: Porto Editora

Sinopse:
As mulheres assistem ao mundo como presas dos homens. A história do mundo revela tempos em que a mulher mais não é do que um instrumento da vida do homem. Neste romance, valter hugo mãe torna impossível ignorar este facto.

Criador de uma linguagem exuberante, e deitando mão à mais rica imaginação, o autor explica o amor a partir do ponto de vista tremendo do machismo. Esta é a aventura de um homem que, casando com a moça mais bonita da sua terra, se deixa corromper pelo preconceito e pela pobre tradição.

Entre ser divertido e cruel, o remorso de baltazar serapião é um marco fundamental na literatura portuguesa contemporânea.


A minha opinião:
«o remorso de baltazar serapião é um tsunami», disse Saramago, acrescentando que o este livro de valter hugo mãe «vai ter uma vida longa.».

Passado na idade média, onde a mulher era tratada abaixo de um qualquer animal irracional, facilmente me dei por mim a fazer trejeitos ao ler certas partes do livro, cuja violência é explorada até ao limite pelo autor. Certo é que a condição da mulher na altura era essa, e baltazar nada de errado fazia para com ermesinda, a rapariga mais bonita da região. Bela aquando o seu casamento, mas que foi ficando feia devido aos maus tratos infligidos por baltazar, mais conhecido como o sarga dos sargas, por causa da vaca, acarinhada pela família, de quem se dizia que ser mãe de baltazar e seus irmãos...

"...homem de verdade consome-se de carnes, é normal. nada normal para mim que recuso ser de homem, nada quero que homem algum me toque. e porque te casaste. sempre fui casada por pais ou homens que me mandassem, mulher solteira é má de vida e fica sem trabalho nem amizades. pois mulher minha apanha tanto quanto deve, até que se ensine de tudo o que lhe digo."



Ermesinda é espancada todas as vezes que baltazar suspeita das suas infidelidades. E de nada vale defender-se... de cada pancadaria fica deficiente de qualquer parte do corpo, ou um pé que fica torto, ou um olho que sai..., mas baltazar ama-a à sua maneira (?) ou assim pensa amar. E vive na incerteza se é corno ou não.

No meio de tudo isto é difícil destrinçar qual o mais animalesco. Se a teresa diaba que se dava a qualquer homem, se baltazar e o pai, brutos com as mulheres, se ermesinda, que se deixava subjugar sem dizer um ai. valter hugo mãe expõe a Idade Média com sabedoria de um contador de histórias. E, ao fazê-lo, trazendo-a para nós, leitores, transporta-a para o dia a dia que depressa constatamos que em muitos locais não estamos tão longe dela como gostaríamos. Há ainda quem pense que:

"mulher é coisa de pouca sabedoria e nenhuma estabilidade, o que pensam hoje, amanhã não sabem."

E é por isso que o remorso de baltazar serapião funciona como um murro no estômago para quem o lê.

Muito bom.


sexta-feira, 21 de março de 2014

a máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mãe [Opinião]

Título: a máquina de fazer espanhóis
Autor: Valter Hugo Mãe
N.º de Páginas: 312
PVP: 17€

Sinopse:
Esta é a história de quem, no momento mais árido da vida, se surpreende com a manifestação ainda de uma alegria. Uma alegria complexa, até difícil de aceitar, mas que comprova a validade do ser humano até ao seu último segundo. "A Máquina de Fazer Espanhóis" é uma aventura irónica, trágica e divertida, pela madura idade, que será uma maturidade diferente, um estádio de conhecimento outro no qual o indivíduo se repensa para reincidir ou mudar. O que mudará na vida de antónio silva, com oitenta e quatro anos, no dia em que violentamente o seu mundo se transforma?

A minha opinião:
A máquina de fazer espanhóis marca a minha estreia na escrita de valter hugo mãe. Desrespeitando completamente os sinais de pontuação e as maiúsculas no início de cada frase e no nome das personagens em muito me fez lembrar Saramago, mas o que podia ser uma coisa contra em relação á leitura deste livro, tornou-o bastante agradável e especial. Resultou na perfeição.

O livro conta a história de alguns dos 93 utentes de um lar, o lar da feliz idade, protagonizados por António Silva, um velhote de 84 anos que ali é depositado quando a sua mulher, Laura, morre. O que inicialmente é tido como uma afronta da sua família, que no entender dele não o quer mais, o lar acaba por ser um espaço de convívio, de troca de impressões e de histórias do passado, onde o sr. silva trava amizades com as mais diversas personagens.

Cruzamo-nos assim com homens e mulheres que conheceram, ou não, Fernando Pessoa tendo servido de inspiração para o seu poema A Tabacaria, Eugénio de Andrade, Cubillas, mas também nos deparamos com o inspector Jaime Ramos e o inseparável Isaltino de Jesus, personagens dos policiais de Francisco José Viegas.

Mas é sobretudo no sr. silva, no sr. antónio silva já que o apelido silva é partilhado por muitos dos utentes, que nos vai desenrolando a maior parte das suas memórias, tempos do Estado Novo, de um grande amor pela sua laura, da ingratidão dos seus filhos, um que está na Grécia e que nunca o visita nem telefona e de uma Elisa que o traiu colocando-o naquele local.

Pelo lar feliz idade vão passando amigos, vão morrendo amigos, mas vai-se vivendo...

A máquina de fazer espanhóis, dedicado ao pai de valter hugo mãe que não teve oportunidade de viver a terceira idade, é uma mordaz crítica à sociedade. À sociedade passada, mas também à actual que deixa os velhos num novo lar e se esquece de os visitar, de conviver com eles, de aprender com eles.

Este foi o primeiro livro que li de valter hugo mãe, mas de certeza não será último. Muito bom. 


Excerto:
"com a morte, também o amor devia acabar. acto contínuo o nosso coração devia esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutria pela pessoa que deixou de existir. pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez por todas com piedade. e não é compreensível que assim aconteça. com a morte, tudo o que respeita a quem morreu, devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano. esse é o limite, a desumanidade de se perder quem não se pode perder. foi como se me dissessem, senhor silva, vamos levar-lhe os braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito mas não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante."