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quarta-feira, 16 de abril de 2014

A Sétima Porta - Richard Zimler [Opinião]

Título: A Sétima Porta
Autor: Richard Zimler
N.º de Páginas: 616
PVP: 17,70€

Sinopse: 
Em 1990, Richard Zimler encontrou, numa cave de Istambul, sete manuscritos do século XVI escritos pelo cabalista Berequias Zarco. Um deles narrava o pogrom de Lisboa e o autor utilizou-o para cenário do seu livro O Último Cabalista de Lisboa. Mas, o que revelavam os outros seis manuscritos?
Em Berlim, na década de trinta, Isaac, um descendente de Berequias Zarco e detentor dos manuscritos, está determinado a descobri-lo. Convencido de que o pacto entre Hitler e Estaline anuncia uma profecia apocalíptica prestes a concretizar-se, Isaac Zarco procura arduamente descodificar aqueles textos cabalísticos medievais para assim salvar o mundo.
Passado durante a ascensão de Hitler ao poder, e coincidente com o período da perseguição nazi aos portadores de malformações físicas, A Sétima Porta junta Sophie Riedesel – uma jovem ousada, sonhadora e ambiciosa – a um grupo clandestino de ativistas judeus e antigos artistas de circo liderado por Isaac Zarco, numa luta contra as políticas antissemitas. Mas quando uma série de esterilizações forçadas, estranhos crimes e deportações dizimam o grupo, Sophie ergue-se num combate solitário contra aqueles que ameaçam destruir tudo o que ela mais ama na vida.
Um romance emocionante carregado de simbolismo e uma verdadeira lição de História e de humanidade sobre as muitas vítimas sem rosto de um dos regimes mais implacáveis de todos os tempos.

A minha opinião:
Depois de ter lido A Sétima Porta, não podia ficar indiferente aos livros de Richard Zimler. A Sétima Porta foi o livro que se seguiu e consolidou o que já pensava do autor: um contador de histórias excelente.

A Sétima Porta será uma continuação de O Último Cabalista em Lisboa (que tenho em casa para ler), e conta a luta que um descendente de Berequias Zarco em descodificar os textos deixados pelo seu antepassado. Isaac Zarco, um homem bastante interessante e próximo da personagem principal, leva praticamente a sua vida a tentar salvar o mundo, que passa pela descodificação de sete portas.

Sophie, ariana e católica, é uma rapariga aparentemente exemplar aos olhos dos alemães. Antes da guerra é uma jovem feliz, com um pai comunista, um irmão diferente (talvez autista) e uma mãe um tanto ou quanto severa, de origem russa. Até que Hitler chega ao poder e tudo muda.

O pai, comunista, decide mudar de partido e render-se ao nacional-nacionalismo, o que leva o leitor a compreender por um lado a intenção clara de defender a família, mas por outro se desprezar completamente o facto de não se opor à hospitalização do filho, Hansi, que levará à morte.

É, portanto, nos tempos do nazismo que decorre a história. Sophie torna-se uma miúda irreverente, contrariando a família e até mesmo o namorado, dando-se com pessoas diferentes às escondidas. Os seus melhores amigos são as gentes do circo, pessoas com deformações físicas e um judeu que será importante na sua vida, Isaac. Logicamente, todas estas pessoas, são detestadas e perseguidas pelos amantes do nazismo e de Hitler, o que as coloca sempre à margem de tudo. Todos eles, excepto Sophia, são membro de O Círculo, um grupo que pretende combater as leis vigentes e trair o Führer.

É com estas pessoas que Sophie vai conviver e com Isaac vai descobrir os segredos da cabala e dos judeus, tentado compreender também o significado das portas que Isaac tanto fala e da importância, sobretudo, da Sétima Porta.


Mais do que um relato do que se viveu na altura do antigo regime, onde se faziam esterilizações a pessoas ditas diferentes, como anões, gigantes, com mal formações, deficientes mentais, passando pelo seu internamento e morte através do gaseamento; as perseguições aos judeus e pessoas que se dessem com ele, a Sétima Porta é um romance de amor que quebra todas as barreiras, um romance entre uma católica e um judeu, entre uma jovem e um homem já maduro.

O único senão, e por isso não leva as cinco estrelas, foi o final um pouco abrupto da vida de Sophie. A saída dela da Alemanha em guerra, da vida de adulto do seu filho, que por algum motivo que não foi bem explicado, a dado momento quis ser tratado como sobrinho. É precisamente assim que começa e termina a história, sem que haja grande ligação entre a história principal.

Excertos:
"Talvez as necessidades mais profundas sejam os tijolos e o cimento com que construímos as nossas ilusões."
 

"... um burro de duas pernas é um alemão que não lê livros."
 

"Um empolgado caçador de ratazanas que só poderá atrair os que insistirem em ser cegos."

"De qualquer forma, não tem importância, os judeus estão a fugir - porque hei de travar as batalhas deles?"

"... a Alemanha transformou-se num Carnavaal que dura o ano inteiro... um tempo de máscaras em que temos de esconder as pessoas que somos de facto."

"Quando me informaram da morte de Heide, choro apenas durante algum tempo. Talvez esteja a ficar habituada a ver abutres voltejar nos céus por cima de mim. A nova ave nacional da Alemanha."

"... a morte é a única coisa que nunca acaba."



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Sentinela - Richard Zimler [Opinião]

Título: A Sentinela
Autor:
Richard Zimler
Tradução: José Lima
Págs.: 424
PVP: 16,60 €


Sobre A Sentinela:
6 de julho de 2012. Henrique Monroe, inspetor-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspetor descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade.

A minha opinião:
A Sentinela não é um policial comum: o protagonista não é o assassino, nem vítima, mas simplesmente O inspector Henrique Monroe e o seu alter ego: Gabriel, ou Sentinela.

O assassinato de um empresário da construção civil, abastado e com grandes influências por parte da classe política levam à cena do crime o inspector Monroe e Lucy, polícia que investiga, pela primeira vez, este género de crime.

Espantado e até admirado com este crime violento, Monroe logo suspeita que o crime principal poderá esconder um outro crime mais grave ainda. Empresário rico, Pedro Coutinho foi somando inimigos devido aos subornos sucessivos, à corrupção, mas depois de esmiuçar a cena do crime, Monroe não chega a nenhuma conclusão óbvia.

Paralelamente à investigação surge a vida pessoal, passado e presente, de Monroe. Originário de Colorado, EUA, Henrique Monroe veio para Portugal com 14 anos, acompanhado do irmão, Eric, quatro anos mais novo.O passado ensombra os dois irmãos, que não conseguem ver-se livres dele. A violência que sofriam por parte do pai, psicológica e física, a morte da mãe, vai fazer com que se Eric se torne praticamente num eremita e Monroe crie um transtorno de identidade dissociativa que o faz "fugir" da realidade por momentos surgindo o seu alter ego Gabriel. É a sentinela que o vai ajudar a descobrir o crime (ou crimes), lançando-lhe pistas cruciais para o desfecho final.

Importante na narrativa é também a harmonia familiar que Monroe tem com a mulher e os dois filhos, pouco habitual em livros do género.

Com alguma semelhanças com o próprio autor (Zimler é americano e veio para o nosso país em 1990), Monroe ainda me cativou mais.

A Sentinela mostra muito da realidade portuguesa, da corrupção nas altas esferas da sociedade e da política, do "medo" da própria polícia em avançar com certas descobertas macabras, da crise...

Esta foi a minha estreia nos livros de Richard Zimler e, confesso, tardia, mas que não vai ficar por aqui. O próximo a ler do autor será "O Último Cabalista de Lisboa".

Excerto:
"Ser pai é para mim uma constante surpresa. Provavelmente porque tudo parece passar demasiado depressa."