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domingo, 29 de outubro de 2017

O Caminho Imperfeito - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: O Caminho Imperfeito
Autor:
José Luís Peixoto
Género: Literatura/ Viagem
N.º de páginas: 192
PVP: € 17,70

O lado B do paraíso José Luís Peixoto está de volta com mais uma incursão na literatura de viagens. Destino: Tailândia.
Depois de nos ter mostrado, em Dentro do Segredo, o lado secreto de um dos países mais inacessíveis do mundo, a Coreia do Norte, José Luís Peixoto oferece-nos um olhar pelo avesso de um dos destinos que é o lugar-comum das viagens exóticas: a Tailândia. O Caminho Imperfeito nasce de uma viagem do autor, com o ilustrador Hugo Makarov. O itinerário que percorreram torna-se o fio condutor, levando-os através dos lados menos explorados deste país (a cultura, a religião, a geografia) enquanto se sobrepõem as experiências do autor naquele país do Sudoeste asiático, nesta e em anteriores visitas.
Uma série de tenebrosas encomendas numa estação de correios de Banguecoque faz com que a deambulação se transforme numa demanda através da Tailândia, impulsionando a descoberta do lado mais sombrio deste popular destino de férias.
Esta é também uma narrativa que nos oferece uma reflexão sobre a brutal indústria do turismo. José Luís Peixoto é o turista que observa o outro turista e, nesse jogo de observação, vê o reflexo de si próprio, enquanto visitante e inevitável consumidor.

A minha opinião: 
Quando viajamos o que trazemos connosco? As nossas próprias vivências, um determinado local visto sob a nossa perspectiva, que poderá ser completamente diferente do local visto pelo nosso companheiro de viagem, pelas pessoas que também visitaram ou até por turistas que acabam por lá permanecer. Mas não é por isso que não podemos retratar aquele local como se já o conhecêssemos de ginjeira, não é menos válido do que as pessoas que nele habitam. Quando visitámos um local e decidimos falar dele é obviamente sob o nosso ponto de vista, sob a nossa perspectiva. No caso concreto de José Luís Peixoto esta é a sua Tailândia.

Acompanhado por Hugo Makarov (que já tinha colaborado com ele na edição especial de O Principezinho distribuída com a Visão e o jornal “Expresso”), para fazer este livro, que resultaria em ilustrações magníficas do segundo e um verdadeiro relato da viagem pelo primeiro. 

José Luís Peixoto acabaria por estar em vantagem visto não ser a primeira vez que visitava o local, nem a segunda. Não foi, portanto, uma surpresa, mas há sempre algo por descobrir. Viveram momentos engraçados os dois, que engrandeceram o currículo de viagem, mas também este livro. Pelo meio percebemos que “O Caminho Imperfeito” é o caminho feito pelo escritor ao longo da sua vida. Além de um livro de viagens é uma autobiografia, um pouco que o autor dá de si e que deseja revelar.

"Incomoda-me quando alguém acha que sabe quem sou apenas porque leu um livro escrito por mim - como este - ou, até, porque leu uma frase mal citada ou viu a minha cara numa fotografia. Sinto-me agredido quando tentam reduzir-me a conceitos fechados e intransigentes, construidos por olhares que não se questionam a si próprios, que não admitem qualquer hipótese de falha no seu preconceito."
"O Caminho Imperfeito" é um livro sobre a família, sobretudo os filhos, as primeiras viagens, o seu pai, as irmãs… 

Dono de uma escrita ímpar José Luís Peixoto facilmente me levou a viajar entre a Tailândia e Las Vegas, mas também pelo seu Portugal que também é meu. Pelo Alentejo da sua infância e a Lisboa da sua juventude entre escapadelas pelo Bairro Alto, até às primeiras tatuagens... 
"Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade. Não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou."

Não me impressionou tanto como "Dentro do Segredo" até porque são realidades diferentes, mas gostei de conhecer algumas histórias tailandesa, algumas sórdidas demais, mas penso que próprias daquele país asiático. O Caminho Imperfeito é um livro de viagens, mas contém também um pouco de autobiografia, o que foi o que mais me agradou.

“Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre.”
“Escrever é ouvir vozes. Escutei cada uma desta frases antes de escrevê-las.”

São sobretudo as suas palavras, a forma como escreve, que José Luís Peixoto se tornou no meu escritor de eleição. 
Recomendo.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

José Luís Peixoto: Prémio Oceanos 2016 com o romance «Galveias»

Mais importante prémio de literatura em língua portuguesa no Brasil

José Luís Peixoto é o vencedor da edição deste ano do Prémio Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa, organizado pelo Itaú Cultural, no Brasil – herdeiro do antigo Prémio Portugal Telecom. O escritor português venceu o prémio com o romance Galveias, publicado pela Quetzal em Portugal, em 2014.
O anúncio foi feito na noite de ontem, em São Paulo. Peixoto foi o único escritor português consagrado nesta edição do mais importante e prestigiado prémio literário do Brasil. Para além da notoriedade da literatura portuguesa, a nível internacional, associada à atribuição deste galardão, Peixoto recebe um prémio no valor de 100 mil reais, o que corresponde a cerca de 27 mil euros.
Galveias – nome da aldeia natal de Peixoto, no Alentejo – está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre o mundo rural português.
Um misterioso objeto cai sobre uma pequena vila do interior de Portugal – esse facto vai marcar a vida de todos os habitantes e é o ponto de arranque para um fantástico elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, desenha um mundo cheio de acontecimentos que oscilam entre o trágico e o cómico, entre o nostálgico e o dramático. Galveias é um retrato de vida, a imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

Sobre José Luís Peixoto, Vasco Graça Moura disse que é «um grande ficcionista e, também, um grande prosador da língua portuguesa, capaz de extraordinárias notações do real, de ritmos inovadores e até de uma relação estrutural com as formas musicais que não tem precedentes entre nós».

Sobre o autor:
José Luís Peixoto nasceu em Galveias, em 1974. É um dos autores de maior destaque da literatura portuguesa contemporânea. A sua obra ficcional e poética figura em dezenas de antologias, traduzidas num vasto número de idiomas, e é estudada em diversas universidades nacionais e estrangeiras. Em 2001, acompanhando um imenso reconhecimento da crítica e do público, foi atribuído o Prémio Literário José Saramago ao romance Nenhum Olhar. Em 2007, Cemitério de Pianos recebeu o Prémio Cálamo Otra Mirada, destinado ao melhor romance estrangeiro publicado em Espanha. Com Livro, venceu o prémio Libro d'Europa, atribuído em Itália ao melhor romance europeu publicado no ano anterior. As suas obras foram ainda finalistas de prémios internacionais como o Femina (França), Impac Dublin (Irlanda) ou o Portugal Telecom (Brasil). Na poesia, o livro Gaveta de Papéis recebeu o Prémio Daniel Faria e A Criança em Ruínas recebeu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2012, publicou Dentro do Segredo - Uma viagem na Coreia do Norte, a sua primeira incursão na literatura de viagens. Os seus romances estão traduzidos em mais de vinte idiomas.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Em Teu Ventre - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: Em Teu Ventre
Autor: José Luís Peixoto
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 163
Editor: Quetzal Editores
PVP: 15,50€

Sinopse
«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.

A minha opinião: 
Em Teu Ventre é um livro sobre as Aparições de Fátima. Contudo, se pensa, à partida, que o autor vai tecer considerações sobre o milagre, desengane-se. José Luís Peixoto distancia-se da polémica em torno das aparições de Nossa Senhora a três crianças (ele não gosta de lhes chamar pastorinhos) e faz apenas, e com mestria, o retrato da época, na Cova de Iria.
Fui à apresentação do livro, em Aveiro, com o livro lido e tive vontade de o ler novamente. Tenho de o ler novamente. Há sempre coisas que ficam por ler. A escrita de Peixoto é toda ela poesia. E a poesia lê-se e relê-se e sente-se.

Mais do que centrar-se na aparição o autor foca-se na relação de Lúcia com a mãe, Maria. Uma mãe atenta, preocupada, como são (quase) todas as mães. No fundo, Em teu Ventre é um elogio às mães, não fosse Maria o nome de todas as mães, que carregam no seu ventre os filhos, o ventre, o gerador da vida.
Por isso mesmo, não é de estranhar que a história se centre na questão das mães, na mãe de Lúcia; em Nossa Senhora; e na mãe do autor, a mãe da nossa consciência, a mãe de todas as nossas dúvidas.

Depois, há a religiosidade, mas o ser-se criança também. Lúcia, a mais velha dos primos, em 1917 tinha apenas 10 anos. E gostava de brincar. Os primos também. E ajudavam também. E não vivia na miséria como muito se tem falado... A magia deste livro também foi esta, o ter mudado a forma como via Fátima. Levou-me para a época, para a ruralidade, para o dia a dia daquelas crianças, porque é de crianças que se tratam de facto, para a desconfiança da própria igreja em relação às aparições de Nossa Senhora e novamente para a escrita de José Luís Peixoto. Tenho de pegar no Galveias.

Excelente leitura.


Excertos:
"(Talvez porque escreves livros, pareces convencido de que toda a gente precisa de saber ler. Não creias, há ignorâncias muito piores. Eu sei que é triste sermos obrigados a ficar do lado de fora, sem autorização, como se quisessem fazer-nos ver que não temos a valia dos outros. Conheço bem essa ofensa, acredita. mas repara em tantas vidas que prosperam sem uma letra, repara também em quantos sabem ler e nunca chegam a passar de imbecis.)" pag. 84

"As palavras deixaram de ter alguém que as diga. As palavras andam sozinhas, transportam uma certeza, conduzem-na de rosto em rosto." pag. 111



Nossa Língua — "Não são as palavras que distorcem o mundo". from imaeditorial on Vimeo.



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Livro - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: Livro
Autor:
José Luís Peixoto
Editora: Quetzal
N.º de Páginas: 264

Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura.

A minha opinião: 
"A mãe pousou o livro nas mãos do filho", assim começa a história de Livro, nome de obra e nome da personagem principal, que transporta os leitores para a realidade da emigração portuguesa nos anos 60, a vida numa pequena vila portuguesa, das gentes, da ruralidade em comparação com a vida mundana de Paris.

Com início em 1948,  vivenciamos o drama de Ilídio, um pequeno rapazito que espera numa noite fria e solitária pelo regresso de uma mãe que o abandona à sua sorte e parte para nunca mais voltar. Um rapaz que se fez homem, que batalhou em busca de um sonho, de um grande amor.

É com Ilídio que conhecemos as peripécias dos muitos portugueses que decidem abandonar a sua terra, partindo para um destino melhor, mais desenvolvido, sujeitando-se a tudo e mais alguma coisa para amealhar o mais possível para um dia mais tarde regressarem à sua verdadeira casa.

Mas é na pequena vila que surgem as personagens importantes, desde a velha Lubélia, determinante na relação de Ilídio e Adelaide, a própria Adelaide, Josué, Cosme, Galopim, tudo personagens com características bem marcadas e que povoam o nosso imaginário de pessoas que fomos conhecendo também nas nossas próprias vivências, sobretudo aqueles que também viveram em pequenas localidades nalguma altura das nossas vidas, como foi o meu caso.

Apesar de um pouco maléfica, gostei de Lubélia e da sua história, gostei de Galopim, um jovem tonto, mas com uma grande responsabilidade, e gostei do amor das personagens centrais.


Depois de Morreste-me, este Livro soou-me, em várias partes, a livro autobiográfico. Tal como o protagonista também José Luís Peixoto nasceu em 1974, também ele viveu numa pequena localidade do país, também os pais dele foram emigrantes, o que ajudou a enriquecer mais esta obra magnífica.

Não é, pois, de estranhar que este romance tenha ganho o Prémio Salerno Libro d'Europa.

Estou definitivamente rendida a José Luís Peixoto.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Morreste-me - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: Morreste-me
Autor:
José Luís Peixoto
Editora: Quetzal
N.º de Páginas: 61

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me.

A minha opinião: 
Publicado no suplemento juvenil do Diário de Notícias como um conto, Morreste-me já mostrava o talento de José Luís Peixoto.

Este é o primeiro livro que leio do autor e cada vez fico mais rendida.

Dedicado ao pai, José João Serrão Peixoto, este é um livro que relata a sua doença grave, que culminaria na sua morte. Trata das dores do pai, mas também nas do autor, enquanto filho, na mãe enquanto viúva e nas da sua irmã. A quem já morreu um familiar próximo este livro tocará certamente e nele se reverá. Foi o que aconteceu comigo. Revi-me nas palavras de José Luís Peixoto e com ele revivi a mágoa de já não ter um ente querido, que partiu, mas que fica no coração de quem cá fica.

Um livro pequeno, mas muito grande... Que retrata de uma forma tão bonita as vivências que passou com o seu pai, o seu exemplo, aquele lhe ensinou a plantar para depois colher, aquele que o acompanhou nos diversos momentos da sua vida.

Genial!



Excertos:
"Pai. Deixaste-te ficar em tudo."
"Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei."

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto [Opinião]

Título: Dentro do Segredo - Uma viagem na Coreia do Norte
Autor:
José Luís Peixoto
Edição/reimpressão: 2012
Páginas: 304
Editor: Quetzal

Sinopse:
Desde o interior da ditadura mais repressiva do mundo, desde um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo. Em abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte.

Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.

A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens leva-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo. Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios.

A minha opinião:

Com o intuito de escrever algo que se afastasse de tudo o que já tinha feito, José Luís Peixoto decide partir em viagem à Coreia do Norte e daí resulta Dentro do Segredo, um livro que recomendo para quem quer saber mais do regime que se vive naquele país.

Apesar de não ter descoberto nada de estrondoso da política daquele país, até porque eles próprios não deixam, gostei desta crónica de viagens que, apesar de tudo, me fez ficar de boca aberta com alguns episódios caricatos.

José Luís Peixoto parte para uma viagem marcada com bastante antecedência e cuja visita oficial guiada é a única possibilidade de contacto com a cultura norte coreana. Sendo o regime totalitário mais fechado do mundo era de prever que não “deixassem” os turistas andarem sozinhos, de modo a descobrir o que o poder não quer ver descoberto.

Para tal, teve de deixar o telemóvel à entrada do país, assim como o seu passaporte, que seriam devolvidos à saída. Se Peixoto quisesse comunicar com o exterior tinha sempre o telefone fixo do hotel cujo minuto custava 6 euros. E bastava que a chamada fosse efectuada, mesmo que ninguém atendesse, os 6 euros seriam cobrados.

As fotografias teriam também de ser autorizadas pelos guias, ressalvando que não se podiam fotografar estátuas ou imagens dos líderes que não fossem de corpo inteiro. As fotos seriam visionadas também ao fim de modo a ver se alguém quebraria as regras.

Deste país cujo culto da personalidade dos líderes, quer seja dos passados ou presentes, é uma constante, a população apenas sabe aquilo que o poder quer que saibam. Música estrangeira nem pensar. Livros também não, embora Peixoto tivesse levado Dom Quixote para ler no quarto às escondidas.

Nas visitas guiadas o autor só vê aquilo que os guias, senhor e senhora Kim, quer que veja. Desde fábricas que supostamente produzem milhares de toneladas em produtos, mas que não se vêem trabalhadores suficientes, até cidades que não recebiam estrangeiros há mais de sessenta anos.

Resta falar ainda das sumptuosas infra-estruturas, do inacabado hotel ryugyong, um dos mais altos do mundo, e que todos os coreanos tendem agora a ignorar; da comida fora do prazo e do facto de, pela primeira vez, José Luís Peixoto ter comido carne de cão.


Excerto: 
"Num mundo imperfeito, não há ninguém que esteja sempre certo."