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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A Casa das Meninas Indesejadas - Joanna Goodman [Opinião]

Título: A Casa das Meninas Indesejadas
Autor: Joanna Goodman
Editor: Edições Asa
N.º de Páginas: 384

Sinopse:
Aos 16 anos, Maggie Hughes faz algo imperdoável aos olhos da família: apaixona-se e engravida. O nome do rapaz é Gabriel e a relação de ambos é proibida. A bebé vai chamar-se Elodie e não conhecerá o amor dos pais. Em vez disso, é enviada para um orfanato miserável, onde cresce sem saber o que é ter um lar e uma família.

E quando uma lei atribui mais dinheiro aos hospitais psiquiátricos do que aos orfanatos, a situação de Elodie piora dramaticamente. Juntamente com milhares de outros órfãos, é declarada atrasada mental. O orfanato transforma-se num hospital onde as crianças são submetidas a tratamentos para doenças que não têm, as janelas estão cobertas por grades e as aulas são substituídas por trabalho pesado.

Maggie, entretanto, faz os possíveis por ter uma vida normal. Mas não consegue esquecer a bebé que foi forçada a abandonar. Após um encontro inesperado com Gabriel, que faz ressurgir memórias avassaladoras do passado, ela decide enfrentar a sua perda. E começa então uma busca desenfreada pela sua menina e pela vida que lhes foi negada…

Joanna Goodman baseou-se em factos reais e na história da sua família para escrever A Casa das Meninas Indesejadas. Um romance que relata um momento negro da História e que é universal na abordagem aos laços indestrutíveis que unem mães e filhas.

A minha opinião: 
6 de março de 1950. Maggie dá à luz um bebé indesejado. Desde as primeiras horas de vida que o destino de Elodie está traçado: o orfanato. E vive bem com isso. Elodie não é aquela menina que espera desesperadamente pela visita semanal de casais que "escolhem" aquela criança que podem chamar de sua. E quando não é escolhida não fica triste porque gosta de viver ali junto com as freiras. 

No entanto, a lei muda e o orfanato onde se encontra passa a ser um hospital psiquiátrico, numa forma de obter mais dinheiro por parte do Estado. 

Desse hospital passa para um outro ainda pior, onde as crianças, com deficiência, são muito maltratadas. E as ditas normais caminham para o mesmo. Desde lhe administrarem medicamentos que as deixam completamente apáticas, como zombies, até à feitura de lobotomias, para aquelas mais rebeldes, que as transformam para sempre. 

"Naquele lugar cheio de segredos, não há segredos."

Os anos vão passando, mas Maggie, a quem lhe foi tirada a filha à força quando tinha 16 anos, não se esquece do seu rebento fruto de um grande amor. 

Joanna Goodman pega na triste realidade passada no Quebeque entre os anos 1940 e 1960 e traz-nos um livro fantástico que devorei em pouco tempo. O facto de não estar a par da História fez com que não levasse demasiadas expectativas, e acabei por ficar chocada com o que as instituições fizeram com estas crianças nestes 20 anos. 

Entre 1940 e 1960 foram várias as crianças, órfãs, que foram declaradas doentes mentais pelo governo do Quebeque. Os Órfãos de Duplessis, assim apelidados por Duplessis ter sido primeiro-ministro na altura em que os orfanatos passaram a ser hospitais psiquiátricos, eram considerados frutos do pecado.Nna sua maioria filhos de mães solteiras, foram sujeitos aos atos mais vis. Lobotomia, experiências científicas, o uso de coletes de forças, choques eléctricos e abusos sexuais eram praticados diariamente por freiras e médicos das instituições. Resultando em verdadeiros massacres, uma vez que muitas foram as que perderam a vida.

Tudo isto porque Duplessis decidiu que as instituições psiquiátricas receberiam bem mais ajudas por parte do Estado do que os orfanatos permitindo que os mesmos deixassem de existir transformando-se em instituições de saúde mental.
Imagem retirada da internet que denuncia os maus tratos a que as crianças eram sujeitas nos hospitais psiquiátricos

Só depois que Duplessis saiu do governo é que se começou a descobrir o que as instituições católicas tinham feito com estas crianças, que já adultas começaram a denunciar os maus tratos que tinham vivido nas mãos, sobretudo, de freiras e padres. 

A história, muito bem contada pela autora, é inserida numa linda história de amor entre Maggie e Gabriel. E é também aqui que Goodman mostra a rivalidade entre franceses e ingleses no Quebeque que os separa em duas facções.

Só posso recomendar a sua leitura. 







 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O Pavilhão Púrpura - José Rodrigues dos Santos [Opinião]

Título: O Pavilhão Púrpura
Autor: José Rodrigues dos Santos
Editor: Gradiva
Páginas: 702

Sinopse:
Pode uma ideia mudar o mundo?

Nova Iorque, 1929. A bolsa entra em colapso, milhares de empresas fecham, milhões de pessoas vão para o desemprego. A crise instala-se no planeta.
Salazar é o ministro das Finanças em Portugal e a forma como lida com a Grande Depressão granjeia-lhe crescentes apoios. Conta com Artur Teixeira para subir a chefe de governo, mas primeiro terá de neutralizar a ameaça fascista.
O desemprego lança o Japão no desespero. Satake Fukui vê o seu país embarcar numa grande aventura militarista, a invasão da Manchúria, na mesma altura em que tem de escolher entre a bela Harumi e a doce Ren.
Lian-hua escapa a Mao Tse-tung e vai para Peiping. É aí que a jovem chinesa e a sua família enfrentam as terríveis consequências da invasão japonesa da Manchúria.
A crise mundial convence os bolcheviques de que o capitalismo acabou. Estaline intensifica as coletivizações na União Soviética e o preço, em mortes e fome, é pago por milhões de pessoas. Incluindo Nadezhda.

O mundo à beira do abismo.

A minha opinião: 
No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, as grandes tendências ditatoriais da década de 20 começam a definir-se. No segundo livro da Trilogia do Lótus, vamos acompanhar novamente a vida de quatro personagens: Artur, Nadezhda, Lian-Hua e Satake Fukui e assim perceber o que se vai passando nos
seus países.

28 de maio de 1926 - Artur, jovem tenente, a quem Catarina ainda não conseguiu dar filhos, coube-lhe a missão de convencer Salazar a assumir a pasta das Finanças, numa altura em que a democracia estava em descrédito.

Salazar vai trazer uma política repressiva e de contenção que, apesar de estar a resultar no que diz respeito à dívida pública, gera descontentamento na maior parte da população,que começa a manifestar-se contra as políticas do ministro.

Na União Soviética Estaline sucede a Lenine e prepara-se para avançar com o comunismo puro e duro que vai incidir na coletivização das terras. Nadezhda vive numa região praticamente agrícola, cujas políticas de Estaline vão deixar a sua família completamente de rastos. É através do relato da vida da ainda criança que vamos presenciar as provações que aquela população teve de enfrentar.
A política de Estaline estava a resultar na fome dos pequenos agricultores, que eram obrigados a dar toda a produção ao exército.

"O comunismo viera para os libertar, mas estava a escravizá-los."

China vivia o período unificador das Expedições do Norte, quando o Kuomintang e o Partido Comunista se uniram contra os senhores da guerra e depois se desentenderam.
Lian-Hua apenas 1 ano mais velha que Nadezhda, vivia na quinta da família, no Jardim das Flores. quando foi raptada pelos comunistas do bando de Mao Tse Tung. Mais tarde acaba por escapar.
Em resultado do colapso da Bolsa de Nova Iorque, em outubro de 1929 as exportações diminuem, devido às dificuldades económicas. Os pais de Lian-Hua são diretamente afectados por isso, visto começarem a ter dificuldades para vender a sua seda a um custo justo. Sem exportações, o comércio pura e simplesmente parou.

No Japão, Fukui, cujo pai foi morto por assassinos Shikaku, embrenha-se na ciência política e acaba por concluir que o Japão devia afastar-se das ideias tradicionais do Xintoísmo e modernizar-se com as ideias do ocidente. 
A Eugenia, a seleção genética de raças, começa a tornar forma. 
E o conflito na Manchúria leva a que os chinenes cortem com as importações do Japão. 

"Se um assassino pode matar várias pessoas, um pensamento pode ameaçar a vida de uma nação inteira."

Tudo isto são ingredientes para deixar o leitor, ávido de saber o que se passou no mundo nesta altura, mas também no evoluir das personagens já conhecidas do livro anterior, As Flores de Lótus, que me prenderam na leitura.

Artur continua a ser levado pelas ideias de Salazar, mesmo que não concorde com tudo o que o líder quer implementar. Talvez por isso me tenha desapegado a esta personagem, que tanto me tinha agradado no primeiro livro. Pelo contrário, adorei Nadezhda, que se tem revelado uma rapariga forte apesar de tudo o que tem passado. Estou mesmo curiosa para saber como vai evoluir.
A curiosidade e o interesse em saber mais sobre o ocidente leva a que Fukui seja uma personagem relevante para a história. E depois temos Lian-Hua que, tal como Nadezhda se mostra uma mulher forte, contrariando o que se espera de uma mulher naquela altura.

Confesso que o primeiro livro me interessou mais, talvez por não ter sido tão maçudo nas descrições, mas não deixei de apreciar ler sobre os principais acontecimentos da década de 20 nos vários países envolvidos.
No entanto, esta é uma trilogia a seguir até porque nos ensina muito, através dos longos diálogos das personagens, da história mundial.

Ansiosa por pegar no terceiro volume, que será, certamente, uma das minhas leituras de fevereiro.







quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Uma Coluna de Fogo - Ken Follett [Opinião]

Título: Uma Coluna de Fogo
Autor: Ken Follett
Coleção: Grandes Narrativas nº 673
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: A Column of Fire (The Kingsbridge Novels)
Tradução: Isabel Nunes e Helena Sobral
PVP: 29,90 €
Páginas: 768

Sinopse:
Novo romance de Ken Follett num regresso ao universo de Os Pilares da Terra e de Um Mundo Sem Fim Natal de 1558. O jovem Ned Willard regressa a Kingsbridge, e descobre que o seu mundo mudou.
As velhas pedras da catedral de Kingsbridge contemplam uma cidade dividida pelo ódio de cariz religioso. A Europa vive tempos tumultuosos, em que os princípios fundamentais colidem de forma sangrenta com a amizade, a lealdade e o amor. Ned em breve dá consigo do lado oposto ao da rapariga com quem deseja casar , Margery Fitzgerald.
Isabel Tudor sobe ao trono, e toda a Europa se vira contra a Inglaterra. A jovem rainha, perspicaz e determinada, cria desde logo o primeiro serviço secreto do reino, cuja missão é avisá -la de imediato de qualquer tentativa quer de conspiração para a assassinar, quer de revoltas e planos de invasão. Isabel sabe que a encantadora e voluntariosa Maria, rainha da Escócia, aguarda pela sua oportunidade em Paris. Pertencendo a uma família francesa de uma ambição brutal, Maria foi proclamada herdeira legítima do trono de Inglaterra, e os seus apoiantes conspiram para se livrarem de Isabel.
Tendo como pano de fundo este período turbulento, o amor entre Ned e Margery parece condenado, à medida que o extremismo ateia a violência através da Europa, de Edimburgo a Genebra. Enquanto Isabel se esforça por se manter no trono e fazer prevalecer os seus princípios, protegida por um pequeno mas dedicado grupo de hábeis espiões e de corajosos agentes secretos, vai-se tornando claro que os verdadeiros inimigos, então como hoje, não são as religiões rivais.
A batalha propriamente dita trava-se entre aqueles que defendem a tolerância e a concórdia e os tiranos que querem impor as suas ideias a todos, a qualquer custo.

A minha opinião: 
Apesar de fã confessa de Ken Follett e de o romance histórico ser um dos meus géneros preferidos não li nem Os Pilares da Terra, nem O Mundo sem Fim, obras que consagraram o autor britânico.

Portanto, fui para este Uma Coluna de Fogo completamente às cegas, embora apostasse que esta seria uma leitura surpreendente.

Uma Coluna de Fogo é o término da história que começou com Os Pilares da Terra (escrito há 30 anos), mas não desanimem se não tiverem lido os anteriores, como foi o meu caso. A história percebe-se muito bem e, apesar de gostar de ler os livros por ordem cronológica, este lê-se muito bem separadamente.

Passado entre os anos de 1558 e 1620, um período longo e bastante importante da história britânica, Follett descreve na perfeição o período conturbado em Inglaterra que separa os protestantes dos católicos.

De facto, quando a narrativa começa, reinava Maria Tudor, católica, tendo proibido o Protestantismo em Inglaterra. A partir daí, católicos começaram um luta desenfreada à procura dos protestantes e muita gente morre enforcado por professar uma religião contrária ao catolicismo.

É nesta fase que encontramos Ned Willard, um jovem ambicioso e cuja família é bastante conhecida em Kingsbridge, local onde se vai centrar parte da história. Ned mostra-se um homem de grandes paixões. Paixões amorosas e políticas. Será uma das personagens mais fascinantes da história, e o papel de bonzinho acenta-lhe bem.

Rica em intrigas e guerrilhas sobretudo entre duas das famílias mais ricas e influentes, os Fitzgerald (católicos fervorosos) de um lado e os Willard de outro, a inimizade atinge o topo aquando de uma aposta que corre mal para um dos lados, não sendo bem aceite pela parte perdedora. Isso, aliado a histórias antigas afasta para sempre Ned da sua grande paixão.

A partir daí, Ned abandona a sua cidade natal e acaba por prestar os seus serviços a Isabel Tudor, que acabaria por se tornar rainha pouco depois. Rodeada de inteligentes conselheiros, Isabel reinaria e terminaria com actos de violência entre católicos e protestantes, um reinado completamente diferente do da sua meia-irmã.

Com as ascensão de Isabel ao trono inglês, Ken Follett leva-nos a outros países que, de uma forma ou de outra, tiveram influência na História, como França e Espanha. E é em França que conhecemos personagens deslumbrantes: Sylvie Palot, oriunda de uma família protestante que mostra a sua força depois do massacre que acabaria por vitimar o seu pai. Sylvie acabaria por se transformar na minha personagem favorita. Uma mulher perseverante, avançada para o seu tempo, e que vivia dos livros e do contrabando de bíblias para outras famílias protestantes. E Pierre Aumande o antagonista da história, que teve um papel preponderante em toda a trama.

As intrigas palacianas e a ambição desmedida de Pierre, que acaba por ter algum poder junto da corte por intermédio do duque de Guise, são outra parte importante da história deste livro de Follett. Posso até dizer que são tão ou mais importantes que as passadas em Inglaterra, uma vez que estão interligadas. De facto, o interesse dos franceses é que Maria Stuart, rainha da Escócia e rainha consorte de França, se torne também rainha de Inglaterra depondo Isabel I.

Em Espanha conhecemos o irmão de Ned, Barney um marinheiro que participaria em algumas campanhas militares ao lado de Francis Drake, campanhas essas importantes durante o reinado de Isabel.

Completamente focado na história dos países mais importantes europeus, Uma Coluna de Fogo lê-se tão bem, exceptuando o calhamaço de mais de 750 páginas. Assim sendo, apenas consegui lê-lo em casa, o que demorou um pouco mais de tempo a terminá-lo. Adorei a história em volta das personagens fictícias, mas gostei ainda mais da História e todas as intrigas da época, que Ken Follett retratou tão bem.

Resta-me apenas comprar e devorar Pilares da Terra e Um Mundo sem Fim, que vou comprar o mais breve possível.
Quanto a este, recomendo sem reservas.







terça-feira, 5 de setembro de 2017

VITÓRIA - A jovem rainha - Daisy Goodwin [Opinião]

Título: VITÓRIA - A jovem rainha
Autor:
Daisy Goodwin
Coleção: Grandes Narrativas nº 671
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: Victoria
Tradução: Maria Joao da Rocha Afonso
PVP: 20,90 €
N.º de Páginas: 424

Sinopse:
A VIDA DA RAINHA VITÓRIA EM LIVRO
PELA CRIADORA DA SÉRIE DE TELEVISÃO, DAISY GOODWIN
Com apenas dezoito anos, Vitória torna-se rainha da mais poderosa nação do mundo. Mas será monarca de pleno direito ou uma marionete nas mãos da mãe e do sinistro Sir John Conroy?Conseguirá esta jovem frágil fazer-se respeitar por homens como o seu tio, o Duque de Cumberland, que consideram as mulheres demasiado histéricas para governarem? Todos querem vê-la casada, mas Vitória não tenciona casar por conveniência com o seu primo Alberto, um tímido devorador de livros, que nem sequer sabe dançar. Ela prefere reinar sozinha, apoiada pelo seu Primeiro-Ministro, Lord Melbourne, com idade suficiente para ser seu pai, mas o único que consegue fazê-la rir e que acredita que ela virá a ser uma grande rainha.

A minha opinião: 
A par com Henrique VIII, Vitória é das rainhas mais interessantes da monarquia britânica e, por isso, das mais biografadas também. 

Subiu ao trono aos 18 anos, aquando da morte do seu tio, o Rei Guilherme IV, e o seu reinado durou 63 anos, tornando-se o segundo mais longo da história daquele país.

Orfã de pai desde muito nova, Vitória desde cedo se viu subjugada à mãe, uma mulher completamente dominadora, e do seu "companheiro" John Conroy cuja ambição era influenciar a jovem Vitória no trono de Inglaterra.
  
Mas os planos acabam por sair completamente furados já que Vitória mal ascende ao trono desliga-se da mãe e da má influência de Conroy e apoia-se no primeiro-ministro inglês Lorde Melbourne, um homem com idade para ser seu pai, mas que a atrai e cujo apoio é insubstituível. 

Este livro de Daisy Goodwin centra-se unica e exclusivamente nos primeiros anos de Vitória enquanto rainha até ao seu noivado. Por isso mesmo não conseguimos vivenciar o quão importante foi nas decisões tomadas ao longo dos seus 63 anos de reinado e que desenvolveram a Inglaterra do sec. XIX. 
No entanto, servem para conhecermos melhor Vitória enquanto jovem rainha, com a sua vontade de sobressair no meio de homens poderosos, que se aproximam dela apenas para ganhar mais poder.

O romance histórico propriamente dito foi relegado para segundo plano, tendo a autora dado mais enfoque às relações pessoais da rainha. Talvez devido à sua experiência como produtora de televisão, que criou a série com o mesmo nome este é um livro de leitura leve, sem grande profundidade, mas que prende o leitor a uma rainha que se vislumbra que deixará um grande legado na história britânica, mas também mundial. 

Só posso recomendar.



terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Prodígio - Emma Donoghue [Opinião]

Título: O Prodígio
Autor:
Emma Donoghue
Tradução: Cláudia Ramos
Págs.: 328
Capa: mole com badanas
PVP: 17,70 €

Sinopse:
A jovem Anna recusa-se a comer e, apesar disso, sobrevive mês após mês, aparentemente sem graves consequências físicas. Um milagre, dizem.
Mas quando Lib, uma jovem e cética enfermeira, é contratada para vigiar a menina noite e dia, os acontecimentos seguem um diferente rumo: Anna começa a definhar perante a passividade de todos e a impotência de Lib. E assim se adensa o mistério à volta daquela pobre família de agricultores que parece envolta num cenário de mentiras, promessas e segredos.
Prisioneira da linguagem da fé, será Anna, afinal, vítima daqueles que mais ama?

A minha opinião: 
Completamente diferente do sucesso o Quarto de Jack (não li o livro, mas vi filme), Emma Donoghue regressa com mais um sucesso literário.

Se no primeiro livro publicado por cá a história era contemporânea, neste viajamos até ao século XIX, a uma família que vive numa localidade recôndita da Irlanda. Há ainda um denominador comum: ambos os livros são baseados em histórias verídicas.

Lib, enfermeira inglesa e discípula de Florence Nightingale, é solicitada para prestar serviço numa aldeia irlandesa, serviço esse que durará 15 dias.

Completamente alheia ao que vai encontrar, Lib vai relatando o que vai sentindo ao longo da viagem. O que vê não lhe agrada, quer o clima, quer a localidade, quer as pessoas. Lib sente-se completamente fora do seu meio.

Viúva, céptica em relação a todos os actos de fé, Lib vai encontrar uma família extremamente religiosa que acredita em milagres e que a sua única filha, consegue sobreviver sem comer. De facto, Anna recusa-se mesmo a comer, dizendo não ter necessidade de o fazer, e sobrevive há quatro meses nessa condição, desde o seu 11.º aniversário.

Porém, depois da chegada de Lib e de uma freira que também foi chamada para vigiar Anna, a jovem começa a definhar de dia para dia.

Anna aparenta ter menos idade, apresenta já marcas de uma pessoa que passa fome e Lib não acredita em milagres. Lib e a freira fazem turnos para vigiar Anna, mas o comportamento da própria família é suspeita.

Ao longo de toda a narrativa vamos tendo contacto com o que se passa com a jovem através dos relatos de Lib e do seu diário onde coloca todas as transformações do corpo de Anna.

Baseado em vários casos de virgens que faziam jejum, conhecido como Virgens Jejuadoras, Emma Donoghue cria uma história fascinante onde facilmente se cria empatia com as personagens principais, Lib e Anna.

Ao longo da história, sobretudo durante a Idade Média, ficaram conhecidas centenas de virgens que deixaram de comer para sofrer como Jesus Cristo. Santa Clara de Assis (1193-1253) e Santa Rosa de Lima (1586-1617) são disso exemplo. Atualmente essa doença é comummente conhecida como anorexia

Mais recente, no século XIX, Sara Jacobs teria um trágico fim. A jovem, conhecida por não comer, foi colocada, pelos seus pais, como atracção circense, que culminaria com a sua morte dois anos depois. O que nos remete para a história de Anna, que é em tudo semelhante.

Além da história central, Emma Donoghue mostra claramente tensão entre dois países que nunca se deram bem. A par disso, a diferença de religiões, católica e protestante, na forma de ver a fé e o fundamentalismo de algumas pessoas, sobretudo das menos letradas.

Dona de uma escrita ímpar que nos agarra à história de uma forma incrível, a juntar a isso uma capa lindíssima, só me resta desejar que não percam a oportunidade de ler este fantástico livro que me fez dar-lhe 5 estrelas no Goodreads e colocá-lo na minha lista de melhores livros lidos em 2017.





quinta-feira, 29 de junho de 2017

Café Amargo - Simonetta Agnello Hornby [Opinião]

Título: Café Amargo
Autor: Simonetta Agnello Hornby
Editor: Clube do Autor
Páginas: 368

Sinopse:
O universo feminino, o estilo pormenorizado e o ambiente local que conquistaram os leitores de Elena Ferrante.

Café amargo acompanha a vida de uma mulher que não se curva perante o poder masculino.
O romance nasce na Sicília, mas a autora transporta-nos até muito mais longe.
A protagonista é uma mulher de paixões, marcada também por vários sofrimentos que engole com altivez, como se fosse uma chávena de café amargo. A história de Maria e das suas escolhas pouco convencionais retrata uma época decisiva da Europa.
Um romance histórico marcado por memórias pessoais e vividas.

A minha opinião:
Sem grandes expecativas em relação a Café Amargo, até porque desconhecia tanto a autora como a existência do próprio livro, posso dizer que saí bastante surpreendida com a leitura do mesmo.
Só existe uma palavra para expressar o meu sentimento: adorei!

Itália, finais do século XIX. Maria, a filha primogénita de Titina e Ignazio Marra, prende a atenção do rico herdeiro Pietro Sala, bem mais velho que ela, mas com os seus encantos.

Mundano, culto, viajado, depressa convence Maria do seu amor por ela e de uma vida plena, onde os seus sonhos serão realizados. Maria é uma mulher diferente das outras da sua geração. Como qualquer italiana vive para a sua família, mas também sonha com os estudos e ser professora, assim como adora tocar piano. Essas são duas paixões que não gostaria de abrir mão por causa de um homem.

"A ignorância não é um pecado. Apenas se torna um pecado quando se insiste em permanecer ignorante."

Através, sobretudo, destas personagens, vamos conhecendo a história italiana, mais concretamente a da Sicília e de Palermo, envolvendo-nos com o deflagrar das duas guerras mundiais, mas também do dia a dia daquelas gentes dependentes dos mais ricos e afortunados para sobreviver.

O povo, pouco instruído, sujeita-se a tudo, e o trabalho nas minas é desgastante, como nos vai contando Simonetta em algumas partes da narrativa. A mina de enxofre, gerida pelo sogro de Maria, apesar de dar muito lucro, é um exemplo de desumanidade.
À mínima distração, o mineiro pode morrer sufocado com o cheiro intenso do enxofre, mas pior ainda são os relatos das crianças, filhas de mineiros mais pobres, que trabalham na mina desde tenra idade e que acabam por ser como que escravos. Trabalham muito, dormem no local todos amontoados como se de bichos de tratasse e morrem cedo, por volta dos 30 anos.
Isso vai chocar Maria, que não imaginava que houvesse pessoas a viver nessas condições.

Café Amargo é um livro puramente italiano. O clã tanto dos Marra como dos Sala é bastante unido, com atitudes próprias de familiares, onde o dinheiro leva a muitas amizades, mas sobretudo a conflitos, mesmo dentro do seio familiar. Pietro é um esbanjador, habituado à opulência, Maria é mais ponderada, embora procure conforto para a sua casa e para quem nela trabalha. É pioneira na colocação de casas de banho no interior da moradia, assim como a electricidade e água.
No entanto, não agrada a todos e a sua vida não vai ser facilitada.

Pleno de referências históricas e com personagens marcantes, Café Amargo vai prender os amantes do romance histórico.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Mensageiro do Rei - Francisco Moita Flores [Opinião]

Título: O Mensageiro do Rei
Autor: Francisco Moita Flores
Editor: Casa das Letras
N.º de Páginas: 332

Sinopse:
D. Manuel II foi o nosso último rei. Tinha dezoito anos, quando mataram seu pai, D. Carlos, e o príncipe real Luís Filipe, em 1908. De súbito, caía sobre a cabeça do jovem a obrigação de reinar um país onde os monárquicos não se entendiam, decadentes, caciques traiçoeiros e republicanos que recorriam a todos os métodos, da grande oratória à intriga mesquinha, para que a República deixasse de ser um sonho. Reinou trinta meses. Teve seis governos e a obrigação de casar com uma princesa.

Os reis europeus recusaram-lhe filhas e netas, antevendo a queda da realeza, e á falta de princesa, apaixonou-se por uma deusa francesa: Gaby Deslys. Linda! O amor entre os dois foi o único legado coerente do seu reinado. Rigoberto era o mensageiro que lhe levava notícias do amor distante. Também ele apaixonado por Gardénia.

É a história de amizade entre o rei e o mensageiro, assim como as histórias dos amores de ambos, que vos narro neste livro. Até que o amor os separou, a Monarquia caiu e a República nasceu para viver durante 16 anos, com 45 governos, duas ditaduras pelo meio, e oito presidentes da República.

A minha opinião:

Do Moita Flores falta-me apenas um livro, Polícias sem História. A forma como escreve é atractiva e tão bem escrita que ganhou, desde o primeiro livro, uma fã.

Neste O Mensageiro do Rei, o autor centrou-se na vida amorosa de D. Manuel II e da relação, ficcional, que este teve com um mensageiro dos correios, que tinha como função levar-lhe a correspondência da sua amante.

Escrito de uma forma original, já que o livro é relatado através de um guião cinematográfico, a história é centrada primeiro no ano do regicídio (1908) e da entrada da Primeira República em Portugal.

Nesta fase tumultuosa da nossa história, D. Manuel vê-se "obrigado" a assumir o reinado e a procurar uma noiva com urgência. Não se sente de todo talhado para tal cargo, nem tão pouco com vontade de escolher à pressa uma princesa adequada ao seu estatuto de rei. Acontece que os principais reinos também não se mostram muito interessados em que as suas princesas casem com um rei que poderá estar prestes a deixar de sê-lo e as negociações ficam paradas.

Nesse interregno, D. Manuel conhece uma atriz francesa, nascida em Marselha, já com sucesso nas melhores salas de espectáculo, e se apaixona perdidamente. O amor é recíproco e ambos vivem um verdadeiro amor.

Mais que a relação entre o rei e a atriz, este livro traz a história de um monarca e um simples mensageiro, que presenciou o assassinato do rei D. Carlos e de D. Luís Filipe. Rigoberto é, para mim, a personagem mais cativante. Leva uma vida simples, com um gosto enorme pelo trabalho que faz e pela camaradagem entre os colegas dos correios que me cativou desde o começo. Um homem castiço, com peripécias próprias de um homem com uma vida despreocupada, mas cujo amor por uma rapariga de família lhe traz alguns dissabores. Partilha com o rei o amor impossível.

Gaby Deslys era francesa, nascido em Marselha, mas o grande amor da sua vida foi um português. Tinha sido "uma actriz de grande sucesso nas primeiras duas décadas do século XX. Pisou os melhores palcos de França, de Londres, de Nova Iorque, e um pouco por toda a Europa civilizada de então. Uma verdadeira diva."

De facto, é este grande amor que origina a que Francisco Moitoito seja interpelado por Antoine, um homem estranho que lhe revelou que a sua avó Gaby tinha tido um romance com D. Manuel II e que desejava que Montoito escrevesse um guião para um filme sobre a sua vida.

Desta premissa resultou um livro magnífico que recomendo sem quaisquer reservas.






quarta-feira, 10 de maio de 2017

O Ano da Dançarina - Carla M. Soares [Opinião]

Título: O Ano da Dançarina
Autor: Carla M. Soares
Editor: Marcador
Páginas: 392

Sinopse:
No ano de 1918, o jovem médico tenente Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente francesa, ferido e traumatizado, para o seio de uma família burguesa de posses e para um país marcado pelo esforço de guerra, pela eleição de Sidónio Pais e pela pobreza e agitação social e política.

No regresso, Nicolau vê-se confrontado com uma antiga relação com Rosalinda, dançarina e amante de senhores endinheirados, e com as peculiaridades de uma família progressista.

Enquanto a Guerra se precipita para o fim e, em Lisboa, se vive a aflição da epidemia e da difícil situação política, a família experimenta o medo e perda, e Nicolau conhece um amor inesperado enquanto trava as suas próprias batalhas contra a doença e os próprios fantasmas. Este é um romance de grande fôlego, histórico, empolgante e profundo, sobre a superação pessoal e uma saga familiar num tempo de grande mudança e turbulência em Portugal.

A minha opinião: 
Depois de uma grande desgosto de amor, Nicolau Lopes Moreira decide alistar-se para a Grande Guerra, correndo o risco de morrer. 

Após ficar ferido, Nico regressa em 1918 da Frente Francesa, mas com o coração ainda partido. 
Convalescente, em casa, decide ler na biblioteca, a dezena de cartas que lhe mandam para saber da sua convalescença. Entre elas está a de Rosalina, jovem dançarina do Tetaro Almeida Garrett que o abandonou para seguir o sonho de dançar na Ópera de Paris. 

Já na capital portuguesa, Nicolau revela uma transformação drástica. Apesar de ainda gostar da jovem bailarina está conformado com o facto de que ela não é para si, e decide viver a sua vida longe de uma mulher que lhe quis tanto mal. 

"O Ano da Dançarina" é o primeiro livro que leio de Carla M. Soares e deixou-me completamente vidrada na história. Sou fã assumida de romances históricos, e a temática da Primeira e Segunda Guerra Mundial é das que mais me atrai. Saber que se passará um pouco na frente francesa, passando posteriormente para Portugal onde parte da história se passa na narração dos milhares de mortos provocados pela gripe espanhola, como vulgarmente é chamada, deixou-me entusiasmada. 

A autora escreve muito bem e elaborou uma história bastante interessante em torno da família Lopes Moreira. Desde o louco Nicolau, que parte para a guerra, para fugir ao seu coração, a César, um bon-vivant, mas um irmão dedicado, a Bernarda, uma rapariga avançada para o seu tempo, tendo recebido por parte da mãe a mesma educação que foi dada aos seus irmãos. Bernarda sabe, inclusive, conduzir e é directora de uma revista. Bernarda, a par de Cecília, foram as personagens que mais gostei, talvez pela veia jornalista que ainda há em mim. 

Adorei o enredo, o destino dado às personagens (nem todos podemos ter um final feliz, senão seria um conto de fadas e não um livro que se quer parecido com a realidade). 

Houve ainda o cuidado por parte da autora em colocar a história na História, revelando uma pesquisa vasta, quer sobre a gripe espanhola e o quanto atacou os portugueses, tanto na classe alta como na baixa, quer na reprodução da época, a política ditatorial de Sidónio Pais, resultando num romance 5 estrelas.  
De destacar o título dado ao livro, que não podia estar mais de acordo com a história.

PS. Dei-me por mim tão envolvida na história que quando alguém espirrava junto a mim pensava logo na epidemia da espanhola. 

Excerto: 
"Tudo o que vinha além da fome era «a vida». O desemprego era a vida. Outra gravidez era a vida. Uma doença era a vida. A morte de um filho, ou de muitos, era a vida. Bernarda irritava-se muitas vezes com o fatalismo português, o fado que se darramava nas canções das tabernas lisboetas, por isso admirava que se rebelava contra o estado das coisas." pag. 109



terça-feira, 10 de maio de 2016

O Quinto Evangelho - Ian Caldwell [Opinião]

Título: O Quinto Evangelho
Autor: Ian Caldwell
Título Original: The Fifth Gospel
Tradução: Maria do Carmo Figueira
Páginas: 504
Coleção: Grandes Narrativas N.º 631
PVP: 21,90€

Uma semana antes da inauguração de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, Ugo Nogara, o curador responsável, é encontrado morto em Castel Gandolfo. A polícia papal não consegue descobrir o autor do crime, e o padre Alex Andreou, amigo do curador assassinado, decide investigar por conta própria. Para encontrar o homicida, tem de desvendar o segredo do curador – a verdade dos evangelhos acerca da relíquia sagrada mais controversa e misteriosa do Cristianismo. Porém, quando começa a compreender os contornos da morte de Ugo Nogara, e as suas consequências para o futuro das Igrejas Católica e Ortodoxa, o padre Alex apercebe-se de que também corre perigo. Este thriller arrebatador, baseado numa profunda investigação histórica e bíblica, dá-nos a conhecer os meandros da Santa Sé.

A minha opinião: 
Depois de ter lido A Regra de Quatro em 2012 era com grande expectativa que aguardava um novo livro do autor Ian Caldwell. O Quinto Evangelho demorou dez anos a ser escrito. Felizmente, como não tinha lido o seu primeiro livro aquando da sua saída, não precisei de esperar tanto tempo para ler a segunda obra. 

Tal como no seu anterior livro, Caldwell junta o thriller e o romance histórico, transformando a leitura de O Quinto Evangelho muito atractiva e fascinante. 

Através da morte do curador de arte Ugo Nogara, o autor conta a história de "rivalidade" entre dois irmãos que se encontram em pólos opostos na Igreja: um pertence à igreja Católica outro à Ortodoxa, levando, por isso, estilos de vida completamente diferentes no interior do Vaticano. O que torna este livro ainda mais interessante de ler e de descobrir. 

Ao contrário da Igreja Católica, a Ortodoxa permite que os seus padres casem e tenham filhos, antes da sua ordenação. Alexandre é disso exemplo. Assim como o seu pai e pai de Simão. Gostei de acompanhar o dia a dia do narrador, tanto na investigação da morte do seu amigo, como na educação do seu filho, sozinho, uma vez que a sua mulher abandonou a casa ainda o filho de ambos era um bebé. Acredito que não deva ser fácil para um homem, ainda para mais sacerdote, cuidar de uma criança.

Se Simão é o primeiro a ver o corpo de Ugo, é Alex, o irmão Ortodoxo que começa a investigar a morte do amigo de ambos e a descobrir a verdade dos evangelhos o que poderá estar por detrás do Sudário de Turim, o ponto fulcral da exposição que Ugolino Nogara estava prestes a inaugurar. 

Ao longo de 500 páginas vamos acompanhando Alex, o narrador no livro, nos meandros do Vaticano, conhecendo um pouco dos mistérios em volta do Estado mais secreto do mundo, assim como dos Evangelhos e as suas discrepâncias, dando relevo para o Evangelho de João, quarto e o último a ser escrito. 

Toda esta informação é bem explicada ao longo do livro, mas por vezes confesso que se tornou um pouco repetitiva, o que tornava a sua leitura morosa em algumas partes. No entanto, a vontade de querer saber mais sobre o Vaticano e sobre a morte de Ugo levou-me a não querer largar a sua leitura.

O Quinto Evangelho é recomendado a todos os que gostam de uma boa leitura que junte segredos do Vaticano e com algum thriller




sexta-feira, 15 de abril de 2016

Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa - Judith Kerr [Opinião]

Título: Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa
Autor: Judith Kerr
Encantador, comovente, divertido. O clássico da literatura juvenil sobre a Segunda Guerra Mundial.
Edição/reimpressão:2015
Páginas: 256
Editor: Booksmile
Faixa etária: a partir dos 10 anos
PVP: 14,39€

Sinopse
Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa é uma das obras mais lidas por jovens de todo o mundo. Considerada um clássico da literatura juvenil, e inspirada na vida da própria autora, fala-nos da Segunda Guerra Mundial numa nova perspetiva e até com algum humor.

Vive-se o ano de 1933. Anna tem apenas nove anos e anda demasiado ocupada com a escola e com os amigos para reparar nos cartazes políticos espalhados pela cidade de Berlim com a suástica nazi e a fotografia de Adolf Hitler, o homem que muito em breve mudaria a face da Europa. Ser judeu, pensa ela, é apenas algo que somos porque os nossos pais e avós são judeus.

Mas um dia o pai dela desaparece inexplicavelmente. E, pouco tempo depois, ela e o irmão, Max, são levados pela mãe com todo o sigilo para fora da Alemanha, deixando para trás a sua casa, os amigos e os amados brinquedos. Reunida na Suíça, a família de Anna embarca numa aventura que vai durar anos.

A minha opinião: 
Numa altura em que o tema refugiados está na ordem do dia, este livro juvenil, devia ser leitura obrigatória, não apenas a jovens mas também a adultos. Depois de ter visto alguns famosos numa acção promovida pelo Governo a revelar o que levariam numa mochila, caso um dia fossem refugiados, levou-me a pensar que deviam mesmo por-se num papel de refugiado e começar por ler este pequeno livro, contado por uma criança de nove anos que teve de deixar quase tudo para trás, até o coelho cor-de-rosa de que tanto gostava.

Estamos no ano de 1933 e a Alemanha vive tempos de mudança. O pai de Anna, um escritor alemão bastante famoso, mas judeu, prevê que Hitler chegue ao poder e, como crítico assumido do regime nazi, decide desaparecer misteriosamente. Anna, apesar de ter deixado de ver o pai, não compreende o que poderá mudar no país onde nasceu. Faz a sua vida normalmente, brinca com os amigos e o irmão e nem repara que a mudança pode estar eminente. A sua vida até aqui é bastante confortável, a sua família vive bem e é uma menina feliz.

Depois do pai, Anna e a família têm de fugir, à pressa para a Suíça, um país completamente diferente do seu, onde não sabem a língua e onde os costumes da população são tão estranhos. A demonstração de carinho por parte dos suíços exemplificadas por Anna deixaram-me com um sorriso nos lábios. 

Mas a história de Anna não se fica pela Suíça provando que uma vez refugiado se pode sê-lo para toda a vida. Da Suíça partem para França e, por fim, para Inglaterra, sempre em busca de uma vida melhor e para onde possam dar mais projecção à escrita do seu pai.

Durante 250 páginas vamos acompanhando a vida de Anna e dos seus familiares, de uma forma subtil, sem quase não se tocar na Segunda Guerra Mundial, e vamos conhecendo também um pouco da história da própria autora já que este livro é baseado na sua vida. Completamente adaptável à forma de vida dos países para onde se desloca, e mesmo passando por dificuldades, a família mantém-se unida em todas as adversidades. 

Destaque para o prefácio de Carla Maia de Almeida, tão actual e para as ilustrações autora que são maravilhosas. 

Um livro para ler e reler com a família. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Filipa de Lencastre - Isabel Stilwell [Opinião]

Título: Filipa de Lencastre
A rainha que mudou Portugal
Autor: Isabel Stilwell
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 560
Editor: Livros Horizonte
PVP: 21€

Sinopse:
Mulher de uma fé inabalável, conhecida pela sua generosidade, determinada a mudar os usos e costumes de uma corte tão diferente da sua, Filipa de Lencastre deu à luz, aos 28 anos, o primeiro dos seus oito filhos - a chamada Ínclita Geração, que, como ela, mudaria para sempre os destinos da nação.

A minha opinião: 
Divido em duas partes distintas, Filipa de Lencastre de Isabel Stilwell retrata a vida de uma das rainhas mais interessantes da nossa história. Inglesa, veio para Portugal aos 26 anos para casar com D. João I e, segundo o livro, apesar de não ser uma mulher muito bonita, era extremamente inteligente.

A primeira parte do livro retrata a vida de Philippa enquanto princesa inglesa. Filha de John of Gaunt (filho do rei Edward III de Inglaterra) e de Blanche of Lancaster. Primogénita, Philippa era uma princesa calma, um pouco insegura com a sua beleza, mas muito curiosa em relação a todos os conhecimentos que se iam passando em Inglaterra, cedo mostrou que seria uma mulher muito inteligente.

A família seria muito importante para a Philippa que mesmo adoptando Portugal nunca esqueceria e trocaria cartas com a sua irmã Elizabeth e com a sua madrasta Katherine. Mesmo na corte viveu sempre rodeada de pessoas da sua confiança, inglesas, a quem fazia confidências, embora tivesse contacto com algumas portuguesas de quem gostava muito. 
A segunda parte do livro surge com a vinda de Filipa, agora em nome português, para o nosso país e com o casamento desta com D. João I, no sentido de estreitar relações com os dois países. 

"- E é boa? Boa de carnes, de feições, de corpo? Dizem-me que é feia e anda sempre de terço na mão.
... Philippa sabia tanto sobre a política e as guerras dos povos quanto sobre as rotas do comércio, os preços dos mercados, a situação das gentes que trabalhavam a terra, e do perigo das revoluções que sofrera na pele."

"É inteligente, lê e escreve fluentemente em latim, francês, e inglês. Tem gosto pela aventura; Vossa Majestade havia de a ver de astrolábio a olhar os céus. É reta, leal, submissa, mas também determinada quando sente que as suas convicções estão em causa. É a rainha de que Portugal precisa..." 

Mas este casamento não teria apenas esta finalidade. Filipa de Lencastre seria determinante no apoio à conquista de Ceuta, embora tivesse falecido de peste, tal como a sua mãe, na véspera da partida da expedição em 1415.
 

"Casara a medo com aquela inglesa aos seus olhos já velha, e ganhara em toda a linha uma mulher que apesar da idade lhe dera um rol de filhos, uma política e diplomata que o ajudara a cimentar as suas relações comerciais, irmã da rainha de castela e leão e agora irmã de sangue do rei mais poderoso do mundo."  

Para quem gosta de história e de romances históricos Filipa de Lencastre é uma personagem encantadora. Nem tudo o que é relatado no livro é verídico, até porque é um romance histórico e não um livro de História, mas o certo é que ao ler este primeiro livro de Isabel Stilwell gostei da forma como foi contada a história de uma das rainhas mais emblemáticas da nossa História. Que com 26 anos casa com um rei português, tem 8 filhos, dois deles morrem e os que sobrevivem são chamados de Ínclita Geração por Luís de Camões. 

Foi ainda a principal responsável pela reconstrução de alguns palácios como o Palácio da Vila, em Sintra, sendo responsável pelas chaminés emblemáticas. 

Gostei muito do livro, achei-o bastante documentado, embota senti-se falta das intrigas da corte, dos jogos políticos, tão característicos da época. Relativamente à linguagem achei que esteve, por vezes, pouco adequada ao tempo. 

Esta nova edição da Livros Horizonte traz ainda um roteiro, em período limitado, dos Caminhos de Filipa de Lencastre, que é absolutamente fantástico. Apesar de conhecer muitos dos locais portugueses mencionados, há outros que ainda não visitei. Fiquei agora ainda mais curiosa para conhecer. 



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A Rainha Branca - Philippa Gregory [Opinião]

Título: A Rainha Branca - A Guerra dos Primos I
Autor: Philippa Gregory
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 472
Editor: Editorial Planeta
Coleção: A Guerra dos Primos
PVP: 18,85€

Sinopse
A Rainha Branca é a história de uma plebeia de grande beleza, que ascende à realeza, servindo-se dos seus trunfos e que casa com o rei Eduardo IV. Embora de origens humildes, ela mostra estar à altura da sua elevada posição social e que luta tenazmente pelo êxito da sua família.
Uma mulher cujos filhos estarão no âmago de um mistério que há séculos intriga os historiadores: o misterioso desaparecimento dos dois príncipes encarcerados na Torre.

A minha opinião: 
Primeiro livro da série "Guerra dos Primos" A Rainha Branca começa com a história da plebeia Isabel Woodville que com a sua beleza apaixona Eduardo e acabam por se casar em segredo. Eduardo vai para a guerra e com a sua vitória acaba por se tornar o rei Eduardo IV de Inglaterra, mas o casamento secreto entre ambos vai gerar um conflito enorme entre as duas casas (York e Lencaster) uma vez que lord Warwick tem um grande poder sobre o jovem rei e já tinha outros planos de casamento para Eduardo.

Porém, Eduardo está completamente apaixonado e não pretende anular o casamento com Isabel, uma jovem viúva e com dois filhos, que lhe vai dedicar uma vida apaixonada e a quem lhe vai dar uma vida estável e com bastante filhos.


Da história de Isabel Woodville e Eduardo IV pouco se sabe. Muita é sustentada em lendas como a altura em que se conheceram, (dizem que Eduardo terá caído numa "embuscada" de Isabel para que esta o conseguisse seduzir) ou sobre os dois príncipes da Torre de Londres (que permanece um mistério, e presume-se que tenham morrido de fome ou que tenham sido assassinados na torre. Certo é que em 1674, durante a reforma da "Torre Branca", foram descobertos esqueletos de duas crianças sob a escadaria da capela).

Todos estes factos históricos são aliados com um toque de magia. Gregory cria a história de que Isabel se julga descendente de Melusina, uma espécie de feiticeira das águas com poderes mágicos, em quem se apoia nos momentos maus.

Philippa Gregory é uma exímia contadora de histórias. Apesar do primeiro livro da série não ter sido o que mais gostei de ler, talvez por a história de Isabel não me ter cativado tanto, não deixo de enaltecer a escrita de Gregory. Adoro a forma como sabe contar a história de Inglaterra e nos faz gostar de aprender mais sobre o século XV.

Excertos:
"Querido Deus, só tenho vinte e sete anos, a minha causa foi derrotada, o meu pobre marido está morto. Terei de ser uma das muitas pobres viúvas que irão passar o resto dos dias junto da lareira de outrém, tentando ser boa hóspede? Nunca voltarei a ser beijada? Nunca voltarei a sentir alegria? Nunca mais?" pag. 16

Sobre a Guerra dos Primos:
Já conhecia esta série porque a li desordenadamente. Sem saber que pertencia a uma série comecei por ler "A Rainha Vermelha", depois passei pela "A Filha do Conspirador" e "A Princesa Branca".
Sendo uma série obviamente que é melhor ler os livros pela sua ordem, mas conseguem ler-se isoladamente, porque são histórias com princípio, meio e fim. No entanto, alguns livros podem conter referências a histórias passadas.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

As Flores de Lótus - José Rodrigues dos Santos [Opinião]

Título: As Flores de Lótus
Autor: José Rodrigues dos Santos
Edição/reimpressão: 2015
Páginas: 688
Editor: Gradiva
PVP: 22€

Sinopse:
Pode uma ideia mudar o mundo?

O século XX nasce, e com ele germinam as sementes do autoritarismo. Da Europa à Ásia, as ondas de choque irão abalar a humanidade e atingir em cheio quatro famílias.

Inspirando-se em figuras históricas como Salazar e Mao Tse-tung, o novo romance de José Rodrigues dos Santos conduz o leitor numa viagem arrebatadora que nos leva de Lisboa a Tóquio, de Irkutsk a Changsha, do comunismo ao fascismo o que faz de As Flores de Lótus uma das mais ambiciosas obras da literatura portuguesa contemporânea.

A minha opinião: 
Tal como fez com a vida de Caloust Gulbenkian em dois livros publicados em 2013 e cuja opinião podem ler aqui: O Homem de Constantinopla e aqui Um Milionário em Lisboa, José Rodrigues dos Santos vai repetir a mesma fórmula e publicará dois livros. O primeiro já está nas livrarias desde o dia 22 de outubro e já tive oportunidade de ler: As Flores de Lótus e retrata os vários sistemas políticos implementados em países como Portugal, China, Japão e Rússia. Pelo meio ainda nos vai dando as situações vividas por outros países, de forma a envolver o leitor na história da primeira metade do século XX.

O segundo livro, esse só chegará em 2016, e terá como título O Pavilhão Púrpura.

Como é habitual nos livros do autor, este 14.º romance estende-se por quase 700 páginas, onde maioritariamente se questionam as ideologias do fascismo e do comunismo e os grandes acontecimentos que marcaram as sociedades portuguesa, soviética, chinesa e japonesa. Sob personagens fictícias, outras nem tanto já que José Rodrigues dos Santos disse em entrevistas que Artur, o narrador e personagem principal de As Flores de Lótus existiu realmente embora não o tenha conhecido pessoalmente (conheceu o filho deste), percorremos o dia a dia da vida de quatro famílias, que vivendo em países com culturas completamente diferentes vão viver acontecimentos históricos que vão marcá-las para toda a vida.

Artur vive com os pais em Moçambique mas que se vê “obrigado” a voltar para Portugal para prosseguir os estudos. Envereda pela carreira militar e é ele que vai ser determinante em diversas decisões importantes do destino do País, desde a queda da monarquia até à ditadura e chegada de Salazar à pasta de Ministro das Finanças.

“Mas perante a falência do parlamentarismo, que conduziu Portugal ao caos, para onde mais nos poderemos voltar?” pag. 522

Do Japão chega-nos um frágil rapaz Satake Fukui, que questiona as tradições do Japão ancestral e se mostra muito curioso com o que o ocidente lhe traz através dos livros que lê praticamente clandestinamente na biblioteca.

Na China começa a ascensão de Mao Tse-Tung e Lian-hua que em português significa Flor de Lótus, uma criança bela, de olhos azuis, é raptada da família cujas poucas terras que detém se tornou agora o inimigo número um.

E na Rússia Estaline e os seus aliados espoliam quem cultiva o pouco que tem para comer e para dar aos seus. A família de Nadezhda é disso exemplo.

No entanto, é com Artur que, para mim, o livro se torna mais rico. Enquanto estudante, o jovem questiona-se sobre vários aspectos. Ainda Portugal a viver uma monarquia, e tendo como professor a leccionar Moral e Religião onde eram debatidos diversos e variados temas, Artur aprendeu sobre política antiga, onde tudo começou. Desde os gregos Sócrates, Platão, Aristóteles, Confúcio, passando por Rosseau, Hegel, Engels e Marx até Maquiavel.

As Flores de Lótus fez-me lembrar a trilogia de Ken Follett Um Mundo sem Fim, a Trilogia o Século, onde é abordado  o tema da luta de classes, do sistema político em alguns países, embora os países abordados não tenham sido os mesmos, com excepção da Rússia.

Um livro para devorar e só não dei 5 estrelas devido ao final abrupto e um pouco sem sentido que me fez ficar um pouco zangada com o autor. Parece que se rasgaram algumas páginas do livro e este ficou assim, a meio. Não gostei. À parte isso recomendo a sua leitura.