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quarta-feira, 16 de março de 2016

Conquistadores - Como Portugal Criou o Primeiro império Global - Roger Crowley [Opinião]

Título: Conquistadores - Como Portugal Criou o Primeiro império Global
Autor: Roger Crowley
Título Original: Conquerors: How Portugal Forged the First Global Empire
Tradução: Jorge Freire
Páginas: 304
Coleção: Diversos Ensaio N.º 34
PVP: 18,50€

Sinopse:
O historiador Roger Crowley conta-nos como Portugal construiu um grande império marítimo europeu, dando origem à primeira economia global. Numa narrativa empolgante e solidamente documentada, que equilibra a vertente humana e as dimensões geopolítica e religiosa, o aclamado autor aborda a supremacia marítima de Portugal, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia no seu âmago, as vitórias sobre governantes muçulmanos e o domínio do comércio das especiarias, revelando-nos o alcance do império português e dando vida a personalidades como D. Manuel I, D. João II, Afonso de Albuquerque e Vasco da Gama. O relato essencial e atualizado de como uma das nações mais pequenas e pobres da Europa pôs em movimento as forças da globalização que hoje dão forma ao mundo. Uma obra que dará a conhecer ao leitor português a sua própria história na perspetiva de um investigador estrangeiro.

A minha opinião:
No início do século XV Portugal via-se com sérias dificuldades na sua subsistência. Tinha falta de cereais e ouro e tinha uma necessidade enorme de alargar a sua área de pesca. O desejo de expandir o comércio e de espalhar a fé cristã por outros países, sobretudo pelos países, levou os Portugueses a criar o primeiro império global. 
Em 1415 conquistam Ceuta, norte de África. 

"Em agosto de 1415, uma frota portuguesa atravessou o Estreito de Gibraltar e atacou o porto muçulmana de Ceuta, em Marrocos, um dos pontos mais fortificadas e estratégicos de todo o Mediterrâneo."

Começa assim a ambição portuguesa, cuja população não era superior a um milhão de habitantes. No entanto, Ceuta, a nível económico revelou-se um autêntico fracasso, levando os navegadores portugueses, dirigidos pelo Infante D. Henrique, a explorar o continente africano em busca de ouro, especiarias e escravos.  


Pelas palavras de Crowley vamos acompanhando as conquistas dos portugueses, relembrando algumas coisas que já conhecemos, aprendendo outras que não sabíamos de uma forma interessante e envolvente. 

Crowley retratou o povo português como empreendedor, obstinado e que aproveitou as fraquezas de outros para poder enriquecer. Até dos vizinhos espanhóis, quando expulsaram de Espanha diversos judeus. 

"Entre os refugiados estava o astrónomo e matemático judeu Abraão Zacuto, cuja criação de uma astrolábio náutico e de um livro de tabelas para permitir determinar a posição dos corpos celestes viria a revolucionar a navegação marítima."

E é no reinado de D. João II que se dá a grande parte das descobertas que culminará com D. Manuel I. D. João II morre sem conseguir descobrir o caminho marítimo para a Índia, mas consegue grandes progressos. Bartolomeu Dias passa o Cabo da Boa Esperança , o Tratado de Tordesilhas é assinado entre Portugal e Espanha, tudo isso é retratado e bem retratado por Crowley. O autor não se esquece da importância de Pêro da Covilhã e de Afonso de Paiva, exploradores portugueses, na sua missão pelo oriente.  

Com D. Manuel I vem a descoberta do caminho marítimo para as Índias,  E Afonso de Albuquerque um homem motivado e movido pelo sonho que partilhava com o reu de destruir o Islão, parecendo que tinha pouco tempo para o fazer. A figura central do livro seria mesmo Albuquerque, pelo menos a mais forte, mostrando-se uma personagem extremamente importante para a época, tendo as suas acções militares e políticas sido foram determinantes para o estabelecimento do Império Português no oriente.

Apesar de todo o seu feito e da sua estratégia militar em ter procurado fechar todas as passagens navais para o Índico, foi destituído de governador por D. Manuel I, o que o deixou desiludido com o monarca, morrendo pouco tempo depois. 

«Os meus pecados certamente são grandes para o rei. Condena-me pelo amor pelos homens, e os homens condem-me pelo amor que tenho ao rei.»

Acompanhado de imagens, cartas e de uma extensa bibliografia. Conquistadores de Roger Crowley é um relato emocionante dos feitos dos portugueses pelos mares nunca dantes navegados. Um povo pobre, mas cuja bravura fez com que desejasse conhecer novos mundos e daí extrair ouro, especiarias e implementar a nossa cultura a outros povos.

Muito bom. 




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os Maus da História de Portugal - Ricardo Raimundo [Opinião]

Título: Os Maus da História de Portugal
Reis cruéis, traidores, mulheres fatais, assassinos e gente de má rês…
Autor: Ricardo Raimundo
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 280
Editor: A Esfera dos Livros
PVP: 16€

Sinopse:
A história costuma exaltar os grandes nomes da nação, as figuras que marcaram uma época, os heróis que venceram batalhas e conquistaram novos mundos, os reis que serviram o nosso país com dedicação… Pois, ao longo destas páginas, o que vai encontrar são os maus da nossa história. Os reis cruéis de temperamento violento, os assassinos sem escrúpulos, os homens que a troco de uma vil recompensa não hesitaram em trair o país, as mulheres fatais que enfeitiçaram os homens de poder, levando-os à perdição, os ambiciosos e gananciosos que não olharam a meios para atingir os seus fins, e todo o tipo de gente de má rês… Ricardo Raimundo, autor de Os Escândalos da Monarquia Portuguesa e Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal, volta a surpreender-nos com este livro original, onde ficamos a conhecer o outro lado de algumas das personagens marcantes da História da Portugal.
O rei D. Pedro I tinha um génio violento, D. João II, o Príncipe Perfeito, tinha um lado negro, tendo assassinado, pelo seu próprio punho, o seu cunhado, irmão da rainha. Vasco da Gama levou o nome de Portugal ao outro lado do Mundo, mas os seus feitos violentos e personalidade colérica são pouco conhecidos. O infante D. Francisco, irmão do rei D. João V, era, segundo as crónicas, «um sujeito muito mau». Quem era a Megera de Queluz, perversa, ambiciosa e ninfomaníaca? Fernão de Magalhães pôs-se ao serviço de Espanha por apenas cem réis de diferença. Diogo Alves, o assassino do aqueduto, os regicidas Buíça e Costa e o temido João Brandão são alguns dos malfeitores que vai ficar a conhecer nas páginas deste livro surpreendente.

A minha opinião:
Ricardo Raimundo tem a particularidade de evocar aspectos da história de Portugal menos conhecidos. Ou porque não se sabe muito sobre eles, ou então, porque determinada história não evidencia os portugueses, pelo que não interessa tanto relatar. No entanto, é isso que gosto nos livros deste autor.

Dividido em cinco partes (Seres Perversos e cruéis; Assassinos; Mulheres Fatais, Causadoras da Desgraça; Traidores; Ambiciosos/Irrequietos), o livro torna-se bastante interessante à medida que vamos lendo sobre as mentes pérfidas dos mais ilustres portugueses.

Algumas histórias já são sobejamente conhecidas, mas outras surpreenderam-me, tanto pela perfídia como com o facto das suas histórias não terem sido muito exploradas antes.

A história é sempre feita sob os olhos de quem a vê. E isso é que a torna ainda mais interessante. Por exemplo, D. João II é visto como um dos piores reis portugueses para alguns historiadores pela série de atrocidades que cometeu como perseguições, assassinatos. Contudo, outros historiadores vêem-no como uma pessoa cujos fins justificam os meios, tendo "arrumado" a casa, acabando com os abusos eclesiásticos e dos nobres. O mesmo acontece com Marquês de Pombal: amado por uns, odiado por outros.

O que é certo é que muitos dos soberanos portugueses tinham problemas mentais e físicos, frutos de uniões consanguíneas, o que poderá justificar alguns dos actos atrozes que cometeram. D. Afonso VI é disso exemplo. Com limitações físicas e psíquicas era propenso a más companhias, violento , obsceno, lascivo, impotente... Filho de D. João IV e D. Luísa de Gusmão, não tinha sido talhado para ser rei, mas uma doença fatal no primogénito leva-o ao trono. Mas era uma pessoa muito má.

D. Pedro IV era um mulherengo e tinha um comportamento violento tanto com as mulheres como com outros que o rodeavam. Porém, foi o rei que esteve na liderança do movimento independentista que dará o famoso grito do Ipiranga, declarando a independência do Brasil.

Mas não é só de reis e nobres que trata o livro de Ricardo Raimundo. Luísa de Jesus foi a que mais me impressionou. Assassina em série do séc. XVIII, matou mais de 30 bebés a troco de dinheiro. Uma mulher com pouco mais de vinte anos que se dirigia à roda, local onde as pessoas deixavam os filhos recém-nascidos para serem adoptados, e a troco de 600 réis encarregava-se de um bebé para tomar conta dele. Fez isso mais de 30 vezes até ser descoberta. Luísa seria a última mulher condenada à morte em Portugal.

De uma forma simples, agradável e com histórias curtas, Ricardo Raimundo conta os crimes que cometeram 35 maus da histórias de Portugal.

Recomendo!


 Opinião de outro livro do autor aqui



terça-feira, 29 de abril de 2014

Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex [Opinião]

Título: Holocausto Brasileiro
Autor: Daniela Arbex
N.º de Páginas: 256 páginas + 16 (extratexto)
PVP: 15,50 €

Guerra e Paz|Clube do Livro SIC

Sinopse:
Milhares de crianças, mulheres e homens foram violentamente torturados e mortos no hospício de Colônia, em Barbacena, fundado em 1903. A maioria foi internada sem diagnóstico de doença mental: eram meninas violadas que engravidaram dos patrões, homossexuais, epilépticos, mulheres que os maridos não queriam mais, alcoólicos, prostitutas. Ou simplesmente seres humanos em profunda tristeza. Sem documentos, sem roupa e sem destino, tornaram-se filhos de ninguém.

Em Holocausto Brasileiro, a premiada jornalista de investigação Daniela Arbex resgata do esquecimento esta chocante e macabra história do século XX brasileiro: um genocídio feito pelas mãos do Estado, com a conivência de médicos, funcionários e população, que roubou a dignidade e a vida a 60.000 pessoas.
Bebiam água do esgoto. Comiam ratos. Morriam ao frio e à fome. Eram exterminados com electrochoques tão fortes, que toda a cidade ficava sem luz, por sobrecarga da rede. Os bebés eram roubados às mães logo à nascença. Nos períodos de maior lotação, morriam 16 pessoas por dia dentro dos muros do Colônia. Ao morrer, davam lucro. Os cadáveres eram vendidos às faculdades de medicina. Quando o número de corpos excedia a procura, eram decompostos em ácido, no pátio, diante dos pacientes. Os ossos eram comercializados. Nada ali se perdia. Excepto a vida.
É a essas 60.000 pessoas que Daniela Arbex devolve agora o rosto e a identidade, num relato que recupera o testemunho dos poucos sobreviventes e dá voz aos milhares que já não podem contar a sua própria história. O hospício de Colônia só foi transformado em verdadeiro Centro Hospitalar Psiquiátrico em 1980.


A minha opinião:
"Nada se perdia, excepto a vida."
Barbacena é uma cidade situada no estado de Minas Gerais. Mas também foi guarida do maior hospício do Brasil. O campo de concentração como assim foi designado, estava situado em Colônia, e roubou a dignidade a mais de 60 mil pessoas, a maior parte delas morrendo por lá.

Daniela Arbex faz um relato impressionante sobre a vida degradante dos "prisioneiros" do Colônia. Desde à falta de higiene e comida, passando por terem de beber água do esgoto por não lhe darem água potável, comerem ratos e serem sujeitos a electrochoques e a lobotomias...

E se à partida pensamos que os doentes do Colônia eram todos com problemas psíquicos, desenganamo-nos logo. "Estima-se que 70% das pessoas internadas não tivessem sequer uma doença mental. Muitas vezes a tristeza era a causa para o internamento." O Colônia servia como uma prisão para aqueles cujas famílias queriam ver afastados de suas casas. Jovens grávidas, homossexuais, alcoólicos, mendigos, cegos.

"Começava a trabalhar num campo de concentração travestido de hospital."

Apesar de já ter lido muito sobre o holocausto nazi consegui impressionar-me com o que os pacientes do Colônia tiveram de passar. A morte estava sempre por parte, chegando a morrer, em média, 16 pessoas por dia. Das 60 mil internadas só 200 chegaram aos dias de hoje, praticamente todas retratadas por Daniela Arbex no seu livro. Das coisas que mais me chocaram foi o facto de não permitirem dos pacientes qualquer contacto com o exterior e os bebés que as mulheres tinham eram-lhes tirados. Mulheres completamente desgostosas morriam à espera de que um dia pudessem encontrar-se com os seus rebentos fora daquele local. A maior parte das vezes não aconteceu.

Não entendo como é que um local como esse nunca foi do interesse dos políticos. Nunca se mostraram interessados em desactivá-lo. Nem mesmo por parte dos médicos, tendo a maior parte sido conivente com as mortes e atrocidades que por lá existiam. Talvez porque os corpos dos indigentes lhes dessem de alguma forma jeito para os estudos nas aulas de medicina...

Daniel Arbex soube contar, de uma forma resumida mas tocante, acompanhado de fotografias de época e actuais, um dos livros que mais me impressionou ler este ano.
Recomendo a sua leitura.






quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Os Portugueses Descobriram a Austrália? - Paulo Jorge Sousa Pinto [Opinião]

Título: Os Portugueses Descobriram a Austrália?
Autor: Paulo Jorge de Sousa Pinto
N.º de Páginas: 344
PVP: 19€

Sinopse: 
Felizmente, tem havido também historiadores, académicos e sábios que vão pondo a História nos eixos. Porém, um lado da guarda desse passado tem sido descurado: a divulgação. O simples facto de sermos um país onde não há uma caravela, para lá entrar, ver e tocar (…), diz da importância de livros como este Os Portugueses Descobriam a Austrália? - 100 Perguntas Sobre Descobrimentos Portugueses» Ferreira Fernandes, In Prefácio.
Os Descobrimentos representam a Idade de Ouro da História de Portugal, e continuam a suscitar uma especial curiosidade junto de todos os que se interessam pelo nosso passado. Uma temática recheada de mitos por desfazer e mistérios por desvendar, factos e curiosidades por rever ou redescobrir, mas também ideias-feitas, estereótipos e controvérsias que continuam a povoar o nosso imaginário. Estas 100 perguntas formam um guião de uma visita à fascinante época dos Descobrimentos que nos permite compreender melhor a forma como um povo pequeno conseguiu, entre o desejo de conhecer e a vontade de descobrir, abrir-se ao mundo, espalhar-se pelos cinco continentes e alterar, de forma irreversível, o curso da História de culturas, impérios e civilizações. 

A minha opinião: 
Logo que li a sinopse de Os Portugueses Descobriram a Austrália? desejei lê-lo de pronto. Primeiro porque gosto muito de livros de História, segundo porque gosto sempre de saber sobre a História do povo português e, sobretudo, a História que ainda não está bem documentada.

Confesso que esperava um livro de leitura mais fluída, apesar da temática, e que o autor não estivesse sempre a recorrer a outros temas para responder às perguntas... o que levou a que se tornasse um pouco maçudo.

O que acho é que o autor se perde na História, contando e recontando histórias para só no fim de cada resposta dar a conclusão final.

No entanto, a leitura deste livro não é tempo perdido. Com ele ficam esclarecidas algumas perguntas que vamos fazendo e que para as quais vão surgindo novas opiniões, bem diferentes daquelas que fomos aprendendo ao longo das disciplinas de História no secundário e no meu caso também na universidade.

Perguntas como Existiu uma Escola de Sagres? O que aconteceu a Bartolomeu Dias? Vasco da Gama foi um herói ou um almirante cruel e brutal? O «homem do chapeirão» é a efígie do infante D. Henrique? estão presentes no livro cujas respostas podem não ser verdadeiramente as que achamos como certas. Fiquei surpreendida sobretudo com a resposta do infante D. Henrique. Aquele homem que nos habituámos a ver com aquele enorme chapéu, com aquele figura, muito provavelmente não é o infante...

Para quem gosta de História este é um livro a descobrir e a absorver.





quarta-feira, 8 de maio de 2013

Tempo para Falar - Helen Lewis [Opinião]

Título: Tempo para Falar
Autor:
Helen Lewis
N.º de Páginas: 284
PVP: 15,50 €

Helen Lewis sobreviveu a dois campos de concentração nazi.
A sua história, aterradora, hipnotizante e de uma coragem ímpar, é narrada na primeira pessoa sem o mais pequeno tom de autopiedade. Um livro de memórias, desprovido de especulações ou lições de moral, que é uma verdadeira celebração da vida.

A crítica não ficou indiferente a um testemunho pungente que nos toca o coração.
«Em Tempo para Falar, Helen Lewis traça-nos um mapa do Inferno e, ao fazê-lo, oferece-nos uma obra de arte sem mácula. Nunca põe um pé em falso ao guiar-nos através de uma paisagem de pesadelo. A sua voz não se altera, o seu estilo permanece simples. Uma forma modesta de se exprimir que esconde a angústia da recordação.» Michael Longley

«É a história de um sofrimento quase inacreditável, mas contada de uma maneira que quase infunde alegria no leitor… notável pela sua simplicidade e lucidez elegíacas, pelo ímpeto irresistível, pela integridade insuperável e pela impressionante ausência de autocomiseração e rancor. Em suma, de abordagem fácil, empolgante e de uma honestidade evidente… todos deviam lê-la.» Independent

«O que distingue este livro de todos os relatos em primeira mão do Holocausto é a capacidade evidenciada por Lewis para descobrir traços de humanidade, onde, com toda a justiça, não tinha razões para os ver… recusa-se a desumanizar mesmo aqueles que tentaram arrancar-lhe tudo quanto tinha de humano - um feito raro para qualquer pessoa na sua situação.» Guardian

A minha opinião:
Helen poderia ter sido uma grande bailarina, não não fosse judia... Mas o facto de ter tido aulas de dança e de ter dedicado o pouco da sua vida a aprender a arte fez com que a própria dança lhe tivesse salvado a vida num dos dois campos de concentração onde esteve.

Natural de Trutnov, na antiga Checoslováquia, Helen foi deportada para Terezín e mais tarde para Auschwitz. Seria neste último campo de concentração que iria viver o inferno.

Antes da deportação vivia em Praga com o marido e fazia da dança a sua profissão. Quando a Checoslováquia foi invadida pelo exército Alemão, Helen ainda recebia a visita de um elemento do exército que, até conhecer o casal judeu, não sabia o que o seu próprio exército fazia com eles. Ajudava-os no que mais precisavam, leváva-lhes comida e chegou, inclusive, a guardar os bens mais preciosos antes que estes fossem roubados pelos nazis. No entanto, não conseguiu impedir que fossem deportados para Terezín.

Em Terezín, apesar da ecassez de alimentos, a vida de Paul e Helen não era tão má como em Auschwitz para onde foram algum tempo depois. Em Terezín Helen ficaria doente de tanto trabalho e da pouca comida que ingeria, tendo de ouvir a atroz frase aquando de uma operação à zona da anca: nunca mais vai dançar.

Mas seria em Auschwitz que sofreria a bom sofrer, sempre com o medo de ir para a câmara de gás. E naquele terrível campo de concentração ninguém se podia dar ao luxo de ficar doente, porque se alguma vez precisasse de cuidados médicos, nunca mais veria a luz do dia.

Vivendo sempre em sobressalto e depois de ter sido avisada por um SS que iria no próximo comboio para um outro local, onde Helen sabia que iria ser morta, a "sorte" viria em forma de espectáculo. Em conversa com outra judia Helen disse que tinha sido bailarina e foi o que a salvou. Colocaram-na num espectáculo como bailarina e também como professora. Tinha, assim, escapado a uma morte certa.

Helen vai relatando ao longo de todo o livro os terrores pelos quais passou, mas mostra também ter sido uma mulher de coragem e uma grande mulher. Vencendo todas as adversidades, e mesmo depois de ter sabido que o seu marido Paul não tinha sobrevido, Helen nunca perdeu a esperança de vir a ser feliz e fazer da dança a sua profissão.

Casou e dedicou a sua vida a ensinar os mais novos o seu grande talento.

Mesmo sendo uma leitora "frequente" deste tipo de relatos, continuo a ficar surpreendida e chocada com toda as atrocidades perpetradas a tantos milhares de inocentes sem que nada se fizesse para evitar. O pior é que depois da queda da Alemanha nazi, as atrocidades continuaram a ser cometidas, mas desta vez por parte dos russos.

Para quem gosta do género, mais uma livro a não perder.

Excertos: 
"Em Auschwitz, «a natureza morrera com as pessoas. Os pássaros tinha fugido do fumo negro dos crematórios, que tudo empestava, e a sua partida deixara um silêncio que se assemelhava a um grito»."
"Onde antes reinava o caos, agora havia uma dança."
"Aprendemos a ouvir em silêncio, a ler nas entrelinhas, a falar pouco e a não confiar em ninguém."
"Chegámos no dia 20 de Maio de 1944. Até àquele momento, nada sabíamos sobre campos de extermínio e câmaras de gás."
"... o pior de Birkenau não eram as condições de vida, mas sim a própria vida, que era um pesadelo."
"Em Birkenau, a natureza morrera com as pessoas."



 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Abutres do Vaticano - Eric Frattini [Opinião]

Título: Os Abutres do Vaticano
Autor:
Eric Frattini
Género: Ensaio
Tradutor: Pedro Carvalho
N.º de páginas: 296
PVP: 16,60€
A 19 de abril de 2005, o cardeal Ratzinger foi eleito Papa. Mal sabia ele que, como os seus antecessores, iria encontrar um osso duro de roer: o IOR (Instituto para as Obras Religiosas) ou o Banco do Vaticano. Os Abutres do Vaticano revela uma história de mordomos traidores, filtragem de documentos e fugas de informação, comissões secretas de investigação, serviços de espionagem e contraespionagem do Vaticano, prelados que denunciam a corrupção e são imediatamente afastadas de São Pedro, lavagem de dinheiro, altos membros da máfia siciliana, um plano para assassinar o Papa, uma adolescente desaparecida e supostamente usada como escrava sexual, um guerra entre jornalistas e diretores da imprensa católica, um presidente do IOR com medo de ser morto. No Estado do Vaticano, a realidade é sempre mais estranha que a ficção. 

A minha opinião:
Observador atento sobre os acontecimentos que se vão passando no Vaticano, Eric Frattini tornou-se um visionário da renúncia de Bento XVI como Papa.

Escrito em Outubro de 2012, o autor já adivinhava que o fim do papado de Ratzinger estava perto. Depois de se ter descoberto uma cadeia de infiltradores que passavam mensagens para fora do Vaticano, assim como documentos secretos, aos jornalistas, Ratzinger ficou completamente de rastos. Paolo Gabriele, mordomo do Papa, foi um deles, mas este foi apenas um peão nas mãos dos cardeais Angelo Sodano e Tarcisio Bertone. A traição de Paolo Gabriele foi o que o marcou mais visto ser este uma pessoa de alta confiança por parte do Papa.


Mas comecemos pelo início. Bento XVI foi eleito Papa a 19 de Abril de 2005 e logo no início se deparou com um osso duro de roer: o Banco do Vaticano, ou IOR: Instituto para as Obras Religiosas. Com intuito de fazer uma remodelação no Banco mais secreto do mundo, Ratzinger cavou a sua sentença.

Munido de documentos oficiais, os tais documentos que foram desviados por Paolo Gabriele, Eric Frattini sustenta a história dos abutres com factos, comprovando-os nos documentos que presentes ao longo do livro.

O escândalo do Vatileaks, as várias suspeitas de que o Banco do Vaticano está ligado a grupos maifiosos, passando pelo atentado ao Papa João Paulo II pela turco Mehmet Ali Agca a 13 de Maio de 1981, e até o sequestro de uma jovem de 15 anos dentro da cidade do Vaticano a 22 de Junho de 1983 ajudaram para terminar com o papado. Notícias em jornais de todo o mundo davam conta da fragilidade pela qual estava a passar o Estado do Vaticano e o título de um jornal italiano em fevereiro de 2012 era disso exemplo: "Conspiração contra o Papa: Bento XVI vai morrer dentro de doze meses."

Este livro é a prova de que os altos senhores do Vaticano continuam e poderão continuar a comandar o que se passa lá dentro. E o Papa nada poderá fazer. Angelo Sodano e Tarcisio Bertone não foram condenados e continuam a ocupar altos cargos. 

Os Abutres do Vaticano é um livro muito actual e que aborda assuntos pertinentes para quem quer saber mais do que se passa no Estado mais rico do mundo, mas também o mais secreto... Aconselho a sua leitura.

Excertos:
"Nunca te esqueças, caro Eric, que, para o Vaticano, tudo o que não é sagrado é secreto."
"No Estado da Cidade do Vaticano a realidade supera sempre a ficção."

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil - Leandro Narloch [Opinião]


Título: Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Autor:
Leandro Narloch
PVP: 12,90 €
Editora: Livros d'Hoje
Data de Lançamento: Novembro 2011
ISBN: 9789722048460
Dimensões: 15,5 x 23 cm
Nº Páginas: 368
Encadernação: Capa mole

Sinopse:


É impossível falar da história do Brasil sem referir Portugal. Por mais voltas que se dê, é impossível contar a história do Brasil sem falar de Portugal. A vida dos dois países sempre se cruzou mais do que se podia supor. Um enfoque novo e original. É hora de atirar tomates à historiografia politicamente correta. Este guia reúne histórias que chocam diretamente com ela. Neste livro mencionamos os erros das vítimas e dos heróis da bondade, bem como as virtudes daqueles que são considerados vilões. Alguém poderá dizer que se trata de um esforço semelhante ao dos historiadores militantes, só que na direção oposta. É verdade. Quer dizer, mais ou menos. Este livro não quer ser um falso estudo académico, como o daqueles estudiosos, e sim uma provocação. Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos.

A minha opinião:
Aquando da sua publicação no Brasil Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil criou alguma polémica porque levanta temas que poderão chocar o brasileiro mais defensor do seu país. No entanto, Leandro Narloch sustenta o seu livro em pesquisas várias e vai citando alguns historiadores ao longo da narrativa que comprovam o que ele escreveu.
No entanto, não deve ser fácil para muitos que tinham uma certa ideias de diversas personalidades brasileiras ficarem com outra completamente diferente, deitando completamente por terra actos de heroísmo de que foram alvo ao longo da História.
Basta citar alguns exemplos como o caso da escravatura. O Brasil foi dos últimos países a abolirem a escravatura. Esta foi perpetrada até pelos próprio negros que viram que comércio de escravos vindos de África lhe poderia trazer bom dinheiro. Exemplo disso foi José Francisco dos Santos que conquistou a liberdade por volta de 1830. conhecido como Zé Alfaiate o ex-escravo voltaria a África e tornar-se-ia traficante de escravos, mandado-os para a América e Europa.
Pensar-se que autores brasileiros, alguns deles reconhecidos internacionalmente, têm o passado completamente limpo de coisas más, também é ilusão. Narloch cita vários exemplos: Machado de Assis que foi agente da censura; o escritor José de Alencar que tentou convencer D. Pedro II a deixar de insistir na abolição da escravatura; Jorge Amado que chegou a fazer propaganda pelo nazismo de Adolf Hitler e a apoiar José Estaline...
O autor dá ainda a conhecer que a maioria das apresentações modernas do Carnaval começaram com o fascismo. No Brasil as regras foram instituídas pelo ditador Getúlio Vargas.
E pensar que Santos Dumont foi o inventor do avião é completamente errado. Quem o fez foram os irmãos Orville e Wilbur Wright.
Ao contrário do que se possa pensar, este livro não é nada maçador e lê-se de uma assentada. Muito bem dividido por capítulos, e com vários apartes que complementam a História é um livro que recomendo para quem gosta do tema e sobretudo da História brasileira.

sábado, 12 de novembro de 2011

Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal - Ricardo Raimundo [Opinião]



Título: Vidas Surpreendentes, Mortes Insólitas da História de Portugal
Autor: Ricardo Raimundo
Colecção: História Divulgativa Nr de páginas: 432
PVP: 22 €
ISBN: 978-989-626-344-7
Formato: 16 x 23,5
Encadernação: Brochado

Sinopse:
Numa bonita noite de primavera, a 14 de maio de 1277, Pedro Hispano, o único Papa português, deslocou-se até à câmara onde efetuava as experiências científicas que tanto apreciava. Mas algo de inesperado aconteceu. Uma grande explosão ecoou por toda a cidade de Viterbo. O teto desabava sobre o Papa que, ferido, agonizava por debaixo de uma trave de madeira. Seis dias depois entregava a sua alma ao Criador. O grande explorador Silva Porto, depois de uma vida de conquistas e descobertas, envolveu-se na bandeira nacional, sentou-se em cima de um barril de pólvora e suicidou-se sem glória. O escritor Antero de Quental escolheu um banco de jardim onde estava escrita a palavra «Esperança» para acabar com a sua vida. O médico Miguel Bombarda foi morto por um paciente psiquiátrico. O homem todo-poderoso que todos temiam, António de Oliveira Salazar, caiu do poder graças a uma cadeira de lona. Almirante Reis não esperou para ver e suicidou-se por achar que o golpe de 5 de outubro de 1910 iria falhar…Morrer é sempre tão ridículo. Mas há mortes mais insólitas que outras.

A minha opinião:



Para quem gosta de história e sobretudo da nossa História, aqui fica uma sugestão interessante de leitura. E não se assuste com o volume do livro porque de facto, apesar de ser um livro sobre História lê-se muito bem. Divido por épocas e em que cada capítulo corresponde a uma personagem histórica, facilmente nos transportamos para as diversas situações históricas pelas quais estão a passar os heróis escolhidos por Ricardo Raimundo.
E o que à primeira vista pode ser um pouco macabro apenas ter como pretensão a escrita (e posterior leitura) de um livro sobre mortes insólitas, o que é certo é que o livro se torna bastante interessante em termos de nos mostrar a importância que determinadas personagens tiveram para a nossa história, embora muitas delas tenham sido completamente desprezadas em vida e morrido na mais completa miséria.
Sabia que Bartolomeu Dias acabaria por morrer na segunda vez que atravessou o Cabo da Boa Esperança? E que a esposa do rei D. Pedro IV, Maria Leopoldina, acabaria por morrer após ter sido pontapeada pelo seu marido, estando ela grávida. A agressão de que foi vítima acabaria por provocar um aborto e a sua morte. Que Luísa Todi, considerada por muitos uma das melhores cantoras líricas daquele tempo em todo o mundo, e após ganhar fortunas a cantar nos mais variados locais da Europa, acabaria por morrer na miséria e praticamente só? Que D. Maria II morreu ao dar à luz o seu 11.º filho com apenas 34 anos? E que Francisco Lázaro viria a ser a primeira vítima mortal dos Jogos Olímpicos ao ter entrado em desidratação extrema ao percorrer a maratona? Antes da partida Lázaro tinha proferido "ou ganho ou morro".
A quem aprecia história aqui está um livro que vai certamente gostar.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A Última Testemunha de Auschwitz - Denis Avey com Rob Broomby [Opinião]


Título: A Última Testemunha de Auschwitz
Autor: Denis Avey com Rob Broomby
Prefácio de: Sir Martin Gilbert (Historiador)
PVP: 17,80 €
N.º de Páginas: 328

A Última Testemunha de Auschwitz é a história verdadeira e impressionante de um soldado britânico que entrou de livre vontade em Buna-Monowitz, o campo de concentração conhecido como Auschwitz III, para testemunhar na própria pele os horrores sofridos pelos judeus. A sua atitude acabaria ainda por ajudar a salvar um prisioneiro judeu…
No Verão de 1944, Denis Avey era um dos prisioneiros de guerra do campo de trabalho E715, próximo de Auschwitz III. Muito se ouvia falar da brutalidade aplicada aos prisioneiros judeus que aí estavam presos, mas Denis Avey queria certificar-se de que os boatos eram de facto verdadeiros. Tomou então a decisão de ir pessoalmente testemunhar tudo o que lhe fosse possível, colocando em risco a sua própria vida. Denis Avey arquitectou um plano para trocar de lugar com um prisioneiro judeu e conseguiu infiltrar-se num dos sectores do campo. Passou lá a noite por duas vezes e viveu em primeira mão a crueldade de um lugar onde os trabalhadores escravos eram condenados à morte através do trabalho forçado. Surpreendentemente, sobreviveu para testemunhar o período posterior à «marcha da morte», em que milhares de prisioneiros foram assassinados pelos nazis fugindo ao avanço do exército soviético. Após a sua própria caminhada através da Europa Central, foi repatriado para a Grã-Bretanha. Durante décadas, não conseguiu revisitar o passado que lhe assombrava os sonhos, mas agora Denis Avey foi finalmente capaz de contar toda a história – tão apaixonante como comovente – oferecendo-nos uma visão única do íntimo de um homem comum cuja coragem é quase inacreditável.

A minha opinião:
São muitos e variados livros que surgem e que já li sobre a Segunda Guerra Mundial, mas nunca tinha lido sobre o testemunho sobre um prisioneiro de guerra dos aliados que tinha estado perto de um campo de concentração nazi em Auschwitz. E o seu testemunho é deveras impressionante.
Como o seu campo de trabalho era perto do campo de concentração e de extermínio dos judeus e como acabavam por “conviver” Denis acabou por “travar” conhecimento com alguns deles e pediu para trocar por duas noites a identidade pela do judeu para poder ver pelos seus próprios olhos como é que eles eram tratados e o que viu mudou-o para sempre. Se achava que estava a ser maltratado no campo de trabalho onde estava feito prisioneiro naquele campo de concentração a vida humana para os nazis não era nada, onde presenciou um bebé a ser morto apenas por uma pancada no colo da sua mãe, tudo porque estava a chorar.
Mas esta não é apenas a história de Denis enquanto prisioneiro em Auschwitz, até porque o livro conta ainda com o relato inicial das batalhas em que Denis Avey combateu antes de ser preso e todas as vicissitudes por que passou. Além da sua vida depois de tudo porque passou após do fim da Segunda Guerra Mundial.
No fundo, este é um livro de memórias, memórias que ficaram sempre gravadas na cabeça de Denis e que só foram passadas cá para fora 60 depois.

Excertos:
“...na guerra estamos sempre a arranjar desculpas para nós próprios”
“Tinha testemunhado alguns dos maiores crimes da humanidade, mas não estivera sujeito a eles”.
“A morte começa nos sapatos”, disse Primo Levi (que foi um dos que esteve no campo de Auschwitz III-Monowitz onde esteve também o autor que evitou a marcha da morte e conseguiu sobreviver)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A Lacuna - Barbara Kingsolver [Opinião]


Título: A Lacuna
Autor: Barbara Kingsolver
Tradução: Eugénia Antunes
PVP: 18,90 €
N.º de Páginas: 494


Filho de mãe mexicana e de pai norte-americano, Harrison Shepherd nasceu nos Estados Unidos. Ainda menino mudou-se com a mãe para o México e foi aí que conheceu Diego Rivera, Frida Kahlo e León Trotsky, o grande líder político que, nessa altura, vivia exilado em terras mexicanas.

Atravessando um dos períodos negros da história da América e as décadas de 30, 40 e 50 no México, misturando personagens ficcionadas com figuras e acontecimentos históricos, A LACUNA é uma odisseia emocionante, rica e ousada sobre a forma como a História pode marcar o destino de cada um, não obstante as suas melhores intenções.

A minha opinião:
Parti para a leitura deste livro cheia de curiosidade até porque a junção de nomes como Diogo Rivera, Frida Kahlo (sobretudo) e León Troysky, sempre despertaram a minha curiosidade. Mas, contudo, não posso dizer que fiquei completamente arrebatada pela sua leitura. Talvez pela dimensão do livro que, a páginas tantas, achei bastante monótono, talvez pela descrição demasiado excessiva da vida do jovem escritor Harrison Sepherd e de momentos menos interessantes por ele vividos ao lado da própria Frida e pouco significativos, a meu ver, o que é certo, é que esperava bem mais deste livro.
No entanto, é de ressalvar, a riqueza histórica por demais evidente. Escrito sob a forma de memórias de Harrison Sepherd, um rapaz que desde muito novo vai anotando tudo no seu diário, passando por cartas e jornais, Barbara Kinsolver transporta o leitor aos períodos negros da América e do México dos anos 30, 40 e 50. É através do protagonista que acabamos por conhecer a maravilhosa pintura de Diego Rivera e Frida Kahlo quando estes o aceitam como seu cozinheiro-secretário, assim como temos oportunidade de “conviver” com o exilado político León Troysky, a quem eles dão asilo, em sua casa.
Com o assassinato do líder revolucionário, e aproveitando uma exposição de Frida nos EUA, Shepard parte com ela para aquele que também é o seu país se origem e ali permanece tornando-se num escritor famoso, mas não menos injustiçado. É aqui que tem início a segunda parte do livro.
Um homem apartidário, sem nunca se ter expressado simpatizante por qualquer partido político é perseguido pelo FBI por se mostrar demasiado ligado ao Partido Comunista e acusado de ser favorável ao derrube do Governo dos Estados Unidos.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes - Pedro Almeida Vieira [Opinião]


Título: Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes
Autor: Pedro Almeida Vieira
PVP: 16,65€
N.º de Páginas: 198

Sinopse:
Esta obra congrega um conjunto de 30 narrativas que abordam crimes, e os respectivos castigos, cometidos em Portugal até à abolição da pena de morte em meados do século XIX. Todos os crimes incluídos tiveram condenações à pena capital. Este ano de 2011 é o do centenário da Constituição de 1911 que aboliu a pena de morte e a prisão perpétua para todo o tipo de crimes. A escolha dos crimes baseou-se numa criteriosa selecção segundo a sua relevância histórica, fundamentando-se em documentação oficial e/ou em documentos coevos. São crimes que têm, como denominador comum, a aplicação da pena capital, mesmo que em alguns casos possam ter sido comutadas ou amnistiadas.
Apresenta pois, cruamente, um conjunto de 30 crimes históricos, compreendidos entre os séculos XVI e XIX (até à abolição da pena de morte em 1867), sob a forma de narrativas curtas. Como denominador comum da quase generalidade destes crimes seleccionados está a pena de morte como castigo aplicado, embora em alguns casos tenha ocorrido comutação desta pena.
Uma parte destes crimes são relativamente conhecidos, tendo alguns mesmo sido abordados em obras de ficção ao longo dos anos, como o famoso «Maria, não me mates que sou tua mãe!» de Camilo Castelo Branco. Mas figuras como a de Diogo Alves, António José da Silva (O Judeu), o padre Gabriel Malagrida ou a serial killer infanticida que esteve na origem da fundação da Casa Pia, entre outras, estão presentes neste primeiro volume de Crime e Castigo no País dos Brandos Costumes, que em breve será complementado com um segundo volume que abordará casos judiciais envolvendo atentados a reis e ministros, motins e sublevações, conspirações contra o Estado e crimes económicos, todos com o denominador comum de condenações à pena de morte.

A minha opinião:
Apesar de ter em casa mais dois livros para ler de Pedro Almeida Vieira, Corja Maldita e Nove Mil Passos, e, portanto, serem títulos anteriores a este Crime e Castigo no país dos brandos costumes, certo é que o título e também a sinopse, me despertou mais curiosidade. De facto, Portugal é tido como um país brando, tendo sido um dos primeiros países a abolir a pena de morte, mas também certo é que também por cá houve criminosos à altura dos de lá de fora, e que foram punidos com pesadas penas, que naquela época, levam à pena de morte: a forca, ou queimados vivos.
Gostei de ler Pedro Almeida Vieira porque o autor conta a história destes meliantes em capítulos curtos mas bem explicados e exemplificados mostrando tanto a crueldade dos criminosos, como a crueldade das sentenças, algumas delas que se vinham a descobrir serem posteriormente erradas. A crueldade de Luísa de Jesus que confessou ter matado 28 bebés que tinham sido dados para adopção, a de Maria José que matou a mãe cortando-a em pedaços, história que daria um romance de camiliano, a maldição do Panteão Nacional que viria a condenar um homem por ter roubado uma pequena igreja quebrando os braços de São Frutuoso, roubando igualmente um cofre em prata, assim como outras coisas preciosas. O dito homem era um cristão-novo que na hora da sua condenação, seria queimado vivo, sendo antes decepadas as mãos, diria que “é tão certo eu estar inocente como certo é findarem aquelas obras” referindo-se ao Panteão.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Destroços - Terão sido os Portugueses os primeiros a chegar à Austrália? - James Bradley [Opinião]


Título: Destroços - Terão sido os Portugueses os primeiros a chegar à Austrália?
Autor: James Bradley
P.V.P.: 17,90 €
Colecção: Grandes Narrativas
Nº. na Colecção: 487
Data 1ª Edição: 11/01/2011
N.º de Edição: 1ª
ISBN: 978-972-23-4474-6
N.º de Páginas: 328

Sinopse: Há sete anos que o arqueólogo David Norfolk procura os restos de uma caravela portuguesa do século XVI que teria naufragado no Sudoeste da Austrália. A descoberta dos restos da nave comprovaria a tese de David, segundo a qual dois séculos antes de James Cook os Portugueses teriam desembarcado naquele continente. No entanto o que ele encontra sepultado na areia é algo bem diferente... O autor entretece com mestria, no desenrolar do enigmático enredo, uma sólida base de investigação histórica.

A minha opinião:
Perante a sinopse deste livro pensei que iria que o autor iria, de facto, centrar-se mais no naufrágio da caravela portuguesa do século XVI na costa australiana, mas tal não foi o facto, o que me decepcionou um bocadinho. A estória centra-se sobretudo na investigação de David Norfolk, um arqueólogo que procura encontrar certezas absolutas em que foram os portugueses o primeiro povo a descobrir a Austrália e que na sua procura incessante encontra sepultado na areia de uma praia praticamente deserta um corpo de um soldado da Segunda Guerra Mundial que terá sido assassinado. Esse corpo leva-o e a estória da caravela leva-o a conhecer o velho eremita Kurt, e as suas estórias de vida assemelham-se. Assememelham-se tanto que por vezes se confundem um com o outro levando o leitor a reviver os seus passados como se fossem um só, pelo menos aconteceu comigo uma série de vezes. Tal como Kurt, David sofreu um desgosto de amor. Tal como Kurt, David correu sempre à procura do seu sonho: comprovar a tese do descobrimento da Austrália pelos portugueses. Mas o conhecimento de ambos vai levantar velhas feridas, feridas de amor que ainda não estão saradas e que vão jantar novamente David e um velho amor do passado…

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Homossexuais no Estado Novo - São José Almeida [Opinião]

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Título: Homossexuais no Estado Novo
Autor: São José Almeida
N.º Págs.: 240
P.V.P.: 16,50€

Homossexuais no Estado Novo é uma primeira tentativa de abordagem ao que foi a realidade dos homossexuais em Portugal durante praticamente todo o século XX, ou seja, desde que a jovem Primeira República, enquadrada pela psiquiatria, coloca sob a alçada da lei os crimes contra a natureza até que estes o deixam de ser, em 1982.
O que era ser homossexual em Portugal?
O que é viver uma condição estigmatizada e estigmatizante, em que não há identidade, tão-só uma afectividade e uma sexualidade, quase sempre clandestinas?

A minha opinião:
Após realizar um trabalho sobre homossexuais no Estado Novo para a revista de domingo do jornal Público publicada no dia 12 de Julho de 2009, São José de Almeida decide continuar o trabalho que resultaria neste livro.
E o tema é bastante pertinente já que, desde o dia 9 de Janeiro deste ano que Portugal deu mais um passo na democracia e liberdade, reconhecendo a possibilidade de duas pessoas do mesmo sexo celebrarem um contrato de casamento.
A jornalista e escritora de Homossexuais no Estado Novo faz uma retrospectiva do que é ser homossexual em Portugal na época da ditadura, mas também na guerra do Ultramar, assim como pós-25 de Abril. Um trabalho de investigação sobre o tema, contendo vários testemunhos de pessoas homossexuais, pessoas que viveram numa época de repressão, assim como dá alguns exemplos de pessoas que tiveram grande repercussão na vida portuguesa. Mas antes mesmo do Estado Novo já havia personalidades portuguesas que eram perseguidas pela sua orientação sexual. Caso dos escritores Judith Teixeira, António Botto e Raul Leal. Aos 26 anos, Botto, de sobrancelhas depiladas, era já uma figura típica de Lisboa. Os livros “Canções” de António Botto; “Decadência” de Judith Teixeira e Sodoma divinizada” de Raul Leal seriam mesmo apreendidos.
Judith Teixeira publicaria ainda mais três livros, mas seria também violentamente caricaturada tanto por alguns jornais como revistas. Depois disso nada mais se saberia dela até à sua morte a 17 de Maio de 1959.
Quanto a António Botto este ainda “sobreviveu” até 1947 em Portugal, mas após ter sido exonerado do seu emprego como escriturário no Arquivo de Identificação de Lisboa em 1942, alegadamente por ter recitado poemas na hora de expediente e de ter dirigido galanteios a um seu colega, acabaria por viajar para o Brasil, para tentar sobreviver. No entanto, viveu muito mal e tentou todos os meios para voltar a Lisboa, mas sem sucesso. Até que morre no Hospital da Beneficência Portuguesa a 16 de Março de 1959m depois de ter sido atropelado. Botto é o primeiro escritor a assumir a homossexualidade.
A ideia nessa altura de que se podia tratar da homossexualidade através da medicina foi adaptada em Portugal por médicos de renome como o Prémio Nobel da Medicina, Egas Moniz que dizia que a melhor cura para a homossexualidade era a hipnose. Por isso mesmo, logo que fosse diagnosticado a “doença” da homossexualidade, as pessoas em causa eram, por vezes, internadas submetendo-se a duros tratamentos como electrochoques.
Um desses casos foi o bailarino Valentim de Barros que viveu quase 50 anos no Hospital Miguel Bombarda.
Porém, não se falava de lésbicas, era como se não existisse, mesmo nos meios homo. Havia discriminação de lésbicas feitas por homossexuais. Não há, por isso, um exemplo oficial de uma lésbica em Portugal durante o Estado Novo, embora Irene Lisboa vivesse com uma mulher chamada Aida; da escritora Alice Moderno e de Virgínia Quaresma a primeira jornalista portuguesa. Há ainda o caso das feministas Olga Moraes Sarmento e Palmira Tito Morais.
Apesar de repressivo, o regime de Salazar sempre viveu rodeado de gays tendo vários Ministros homossexuais. No entanto, a PIDE perseguia os homossexuais e polícias à paisana vigiavam os urninóis públicos para depois apreenderem ou chantagearem, a troco de dinheiro os “prevaricadores”.
Há ainda relatos de homossexuais no Ultramar, muitos deles só se manifestando pela ausência de afectos em países tão distantes de Portugal.
Muitos deles, quando regressavam ao nosso país constituíam uma família, casando e tendo filhos. A questão da homossexualidade era mais aberta nos meios artísticos.
O casal de actores Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro tinham relações homossexuais, o cineasta Leitão de Barros, João Villaret, Pedro Homem de Mello, Ary dos Santos, Vasco Lima Couto, os artistas plásticos Lagoa Henriques e Carlos Amado, Mário Cesariny, António Variações ou Al Berto, são ainda outros casos de homossexualismo em Portugal.
Um livro que li de uma assentada e que recomendo pela sua componente histórica sobretudo do ponto de vista das leis em Portugal e noutros países da Europa em relação à homossexualidade.

Excertos:
“A mais inconcebível dessas amenidades de tendências literárias foi uma festa realizada na parte velha da capital e que ficou conhecida pelo “Baile da Graça””.
“Com o caso do “Baile da Graça” no princípio de Fevereiro de 1923 a imprensa descobria a realidade da literatura de Botto”.
“Ninguém queria ter a sorte de Botto e de Teixeira, o próprio Eugénio de Andrade disse que não queria pagar em vida o que Botto pagou” – António Fernando Casais. O mesmo diz que este quadro de autocensura nas artes “só é quebrado pela geração dos surrealistas e por figuras como Mário Cesariny, Natália Correia”, Ary dos Santos…

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