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quarta-feira, 3 de junho de 2020

A Assassina da Roda - Rute de Carvalho Serra [Opinião]

Título: A Assassina da Roda
Autor: Rute de Carvalho Serra
Editor: Editora Guerra e Paz
N.º de Páginas: 272

Sinopse:
O mais horrendo dos crimes: o massacre de inocentes. Um romance de factos verídicos.

Julho de 1772. Na Casa da Suplicação, em Lisboa, agitam-se as hostes perante ruas fervilhantes de um povo acicatado pelos terríveis actos cometidos por uma assassina. Luiza de Jesus é acusada de ter assassinado 33 crianças, expostas na roda da Misericórdia de Coimbra. O que pode ter levado uma jovem mulher a matar impiedosamente inocentes? Quem é ela afinal?
Estas perguntas desassossegam o espírito do intendente Pina Manique, seu julgador. Deambulando entre Lisboa, Coimbra, Figueira de Lorvão e até a Galiza, será possível encontrar respostas? Tradição e mística milenar poderão, afinal, coexistir?
Um romance histórico de intensa emoção, baseado em factos verídicos: aqui, as nossas convicções sobre verdade, mentira, miséria e ostentação são postas definitivamente à prova.
Os horríveis e sanguinários pormenores da execução pública desta assassina serão suficientes para que a «memória de semelhante monstro» não desapareça?

A minha opinião: 
Quando se fala de assassinos portugueses, o nome de Luiza de Jesus vem logo à baila assim como Diogo Alves. Embora Diogo Alves fosse galego e não português, os seus crimes foram cometidos em Portugal, pelo que será um dos mais famosos assassinos que por cá andou.

Sendo a última mulher condenada à morte e executada pelos seus crimes, Luiza de Jesus tem surgido em vários livros que tenho lido ultimamente. Tendo os crimes ocorrido no século XVIII é natural que as informações sejam um pouco escassas, mas todos os livros vão sendo uma surpresa em relação a descobrir um pouco mais sobre esta jovem mulher.

Acusada de ter matado 33 crianças, expostas na roda da Misericórdia de Coimbra, Luiza acabaria por confessar a morte de 28 crianças. No entanto, os cadáveres que os inspetores encontraram nas imediações e em sua casa, apontavam para os 33. Depois de terem descoberto os corpos de duas crianças num terreno, pouco antes de os ter ido buscar à roda, os investigadores encontraram um cenário aterrador em sua casa: corpos desmembrados de crianças por todo o lado.

Rute de Carvalho Serra situou bem a história na época em que ela ocorreu, embora, por vezes, tenha achado que se perdeu em pormenores que envolviam factos da História. Por isso mesmo, acabou por não aprofundar tanto o que levou Luiza a cometer tais crimes. Pela história vamos percebendo que Luiza nunca foi feliz. Desde tenra idade que a fome assolava a sua família, não tendo a mãe outra alternativa que não fosse dá-la para adopção. Pior é que o homem que acabaria por acolhê-la em sua casa, um boticário, lhe fazia diversas experiências, assim como praticava sevícias várias.

No entanto, isso não pode desculpar o que se seguiria mais tarde, quando conseguiu fugir das "garras" do boticário e regressou a casa, encontrando a mãe moribunda e o irmão sem praticamente meios de sustento.

Pelo facto de a autora não te aprofundado os crimes da forma que estava à espera, as minhas quatro estrelas são fraquinhas, estando mais próximo das 3,5. 

De ressalvar, contudo, que o livro está muito escrito e com capítulos pequenos que fazem com que leia bastante bem.












quinta-feira, 12 de abril de 2018

Antes de Sermos Vossos - Lisa Wingate [Opinião]

Título: Antes de Sermos Vossos
Autor: Lisa Wingate
Editor: Edições Chá das Cinco
N.º de Páginas: 368

Sinopse:
Inspirado em factos verídicos, esta é a história de duas famílias e da terrível injustiça que as mudou para sempre. Nascida num mundo de riqueza e privilégio, Avery Stafford tem tudo. Filha adorada de um senador americano, com a sua própria carreira como advogada e um noivo maravilhoso à espera em Baltimore, ela vive uma vida encantada.

Mas quando regressa a casa para ajudar o pai com um problema de saúde, um encontro casual com May Crandall, uma idosa desconhecida, deixa Avery profundamente abalada. Ao decidir descobrir mais sobre a vida de May irá embarcar numa viagem pela história oculta de crianças roubadas e adoções ilegais. E cedo irá desvendar um segredo que pode levar à devastação... ou à redenção.

Baseado num dos mais conhecidos escândalos da América — em que uma instituição de adoção vendeu crianças a famílias ricas —, este romance comovente e fascinante recorda-nos como, apesar de os caminhos que tomamos levarem a muitos lugares, o coração nunca esquece onde pertencemos.

A minha opinião:
Gosto muito de policiais, mas os livros que se inspiram em factos verídicos são dos meus preferidos.
Por isso mesmo, não podia deixar de ler este Antes de Sermos Vossos que, além de uma sinopse atraente, tem também sido alvo de críticas excelentes.

O livro de Lisa Wingate foca-se no sistema de adopções ilegais levadas a cabo por Georgia Tann (personagem verídica) numa instituição liderada por si designada Sociedade de Acolhimento de Crianças de Tennessee. 

A história principal é ficcionada, tendo como personagens principais Avery , uma jovem advogada, filha de pessoas muito influentes na política de uma pequena localidade e a história de uma família pobre, de beira-rio, que acaba por ser separada dos pais quando a mãe destes vai ter mais um filho. A história da família pobre passa-se no passado e é contada pela irmã mais velha, a Reel, que acaba por ser a pessoa que irá retratar mais fidedignamente a história da instituição.

E como é que estas histórias se juntam?
Simples. Aquando de uma visita da jovem Avery a um lar de idosos depara-se com uma mulher que a interpela. Apesar de não ter tido qualquer ligação com aquela estranha, ela fica curiosa em relação à idosa e quando sabe que esta lhe ficou com a pulseira de família volta ao lar para a reaver. E mais intrigada fica quando esta lhe diz que a pulseira que lhe roubou lhe pertence. E quando vê uma fotogafia no seu quarto acha que se parece muito com a sua avó.

Mas como saber mais dessa história se a avó Judy padece de Alzheimer e pode não ser grande ajuda em desvendar o mistério de May? Mas quando Avery lhe mostra a fotografia Judy tem uma reação estranha, embora não lhe diga nada.

A história vai ser desencadeada a partir daí com Avery a descobrir cada vez mais coisas sobre o passado destas duas idosas.

Christina e Joan Crawford, uma das crianças adoptadas
Paralelamente, noutros capítulos que se passam no passado, vamos descobrindo as histórias sórdidas que se passam no lar dirigido por Georgia Tann. Nele as crianças são quase todas roubadas das suas famílias, criadas histórias e nomes novos para as crianças e com um sistemas de adopções em que o dinheiro fala mais alto. Pessoas influentes e com dinheiro acabam por adoptar (comprar?) muitas dessas crianças, nomeadamente a atriz Joan Crawford.

Apesar da história principal ser ficcionada é fácil percebermos que isso aconteceu mesmo na realidade, com crianças reais. Crianças que eram roubadas das suas famílias, servindo apenas como moeda de troca para Georgia Tann ganhar poder, influência e bastante dinheiro com elas. As coisas pioram quando sabemos que as crianças da instituição eram maltratadas e abusadas sob os mais diferentes aspectos.


Georgia Tann
Georgia Tann, como referi anteriormente, era a cabecilha da sociedade de adopções, tendo sido apenas desmascarada em 1950, depois de mais de 30 anos a roubar crianças às famílias mais pobres. Além disso, persuadia os pais a deixarem os filhos ao cuidado da instituição e, mais tarde, em muitos casos, dizia-lhes que a criança tinha falecido.
Operava em círculos poderosos social e politicamente e era admirada no que fazia.
"Ela mudou a ideia generalizada de que os órfãos eram bens danificados."
"Mas a realidade é que aquela instituição era completamente podre. As crianças eram negociadas."
Tann morreu de cancro antes de as acusações sobre ela serem tornadas públicas.



Depois de descoberta toda a história pode detrás da sociedade, tornou-se um dos maiores escândalos dos Estados Unidos.

Este foi um livro que me tocou muito, levando-me a pensar que, infelizmente, há muita coisa que se passa em instituições deste género sem que a verdade salte cá para fora, ou quando se descobre já muitas crianças sofreram na mão de oportunistas como Georgia.
Isto podia perfeitamente ser o retrato de muitas instituições.

Um livro de leitura obrigatória.






domingo, 14 de maio de 2017

Condenados - Sofia Pinto Coelho [Opinião]

Título: Condenados
Autor: Sofia Pinto Coelho
Editor: A Esfera dos Livros
Páginas: 256

Sinopse:
Tiago Palma estava convicto de que iria ser absolvido. Tanto que, no dia da leitura da sentença, levou um saco de ginástica para o tribunal, pois planeava ir treinar logo a seguir. Os planos saíram-lhe tragicamente furados: foi condenado a 18 anos de prisão porque teria integrado um grupo de skinheads que espancou um homem até à morte. Porém, escrutinando as provas, a verdade é que ele só foi condenado porque não conseguiu explicar qual o percurso que fez na noite do crime. Ou seja, por não conseguir provar que estava inocente.

Andreany Vaz também foi condenado por homicídio, juntamente com outros quatro rapazes. Duas testemunhas oculares disseram que disparara sobre a vítima. Contudo, os implicados frisaram que ele não participara no crime e nem sequer estivera no local; um deles assinou duas cartas-confissão e, numa entrevista televisiva, confessou a autoria do homicídio. Nada disso foi suficiente para garantir a sua absolvição, nem ao menos para que o caso fosse reaberto. Em Condenados, A justiça também pode errar revela-se uma justiça que nem sempre prende e condena os verdadeiros culpados. Nalgumas situações há pistas que não foram devidamente exploradas e noutras decisões que nos deixam perplexos.
A minha opinião: 
Sofia Pinto Coelho baseia este livro no programa homónimo que passou na SIC, da sua própria autoria. 
Condenados - A Justiça também pode Errar revela os erros judiciários em Portugal, condenando homens, aparentemente, inocentes, por crimes que não cometeram. 

Através de uma investigação exaustiva, Sofia Pinto Coelho consegue provar, na maioria dos casos, que os acusados não estavam no local do crime, tendo, alguns deles, álibis para aquela hora em que os assassinatos, roubos, ou agressão sexual, foram cometidos. Falhas graves nos processos, advogados jovens ou precários que deixaram correr a investigação e processo sem fazer o que lhes competia, também ajudaram, em muitos casos, a levar os seus clientes para a prisão.  

É incrível como, mesmo depois de todas estas falhas serem expostas, a justiça não tenha feito uma revisão dos processos, continuando os "inocentes" a cumprir penas pelos mais variados crimes. Deste livro só posso concluir uma coisa: basta estarmos no lugar errado à hora errada, ou então ter uma outra pessoa a condenar-nos, que o mais provável é irmos parar à prisão. 

Como não acompanhei o programa, este livro foi ainda mais surpreendente, com histórias que me deixaram de boca aberta e com uma revolta extrema. Ninguém ajudou estas pessoas convenientemente, deixando-as a cumprir anos e anos de uma pena que não deveriam ter cumprido. 

Gostei.


terça-feira, 25 de abril de 2017

Fátima – Milagre ou construção? - Patrícia Carvalho [Opinião]

Título: Fátima – Milagre ou construção?
Autor:
Patrícia Carvalho
Págs.: 232
Capa: capa mole
PVP: 15,50€

Fátima – Milagre ou construção?
Cem anos depois, Patrícia Carvalho questiona Fátima e as intenções por detrás do milagre.
Esta obra é fruto de uma investigação baseada nos mais variados documentos da época, incluindo imprensa, publicações, fotografias e depoimentos, que analisam as versões da Igreja, mas também hipóteses nunca comprovadas que foram levantadas pelos jornais da República que à data gritavam “farsa”.
Nas páginas deste livro questiona-se se terá sido coincidência a Igreja ter tardado a abrir uma investigação ao caso e que, ainda antes de o fazer, tenha começado a adquirir terrenos e a projetar um santuário. Esta e muitas outras questões são levantadas pela autora que dedicou a sua investigação ao fenómeno religioso que marcou o séc. XX em Portugal e que, ainda hoje, atrai milhões de crentes.
Nas palavras da autora “A história de Fátima, tal como eu a fiquei a conhecer, é o que irão encontrar nestas páginas, livres do carácter tantas vezes apologético dado às “aparições” por figuras da Igreja ou do ataque e acusações gratuitas que marcaram os primeiros trabalhos jornalísticos da imprensa republicana, quando Fátima se começou a impor. A informação que aqui vão encontrar é, julgo, suficientemente rica e clara para que cada um possa tirar as suas próprias conclusões.”
Esta obra leva os leitores a colocar uma incómoda pergunta: “Estarão os crentes a alimentar uma mentira cuidadosamente planeada?”.

A minha opinião: 
Com a aproximação do centenário de Fátima "chovem" livros sobre a temática. Embora céptica em relação às aparições, muito céptica até, e católica, sempre me despertou curiosidade em saber mais sobre o que terá acontecido naquele 13 de maio de 1917 e nos outros meses sequentes até 13 de outubro, a última vez que Nossa Senhora "apareceu" aos 3 pastorinhos.

Obviamente que parti para a leitura com muita curiosidade em saber mais do que se passou naquele dia na Cova de Iria, mas mais ainda sobre o tratamento dado depois da aparição. O que li deixou-me ainda com mais certezas.

Como jornalista que é Patrícia Carvalho faz um trabalho exaustivo de investigação de todos os intervenientes da história, do ambiente envolvente, dos relatos dos jornais, de modo a que o leitor possa tirar a suas ilações sobre o assunto. 

Já todos sabem que os pastorinhos eram oriundos de famílias humildes, muito dedicadas à religião. De tal forma que se falava da mesma em todas as situações. Os dois pastorinhos mais novos auto-infligiam-se constantemente, o que os terá deixados mais debilitados e mais propensos para "apanha" a epidemia que grassava Portugal.
Lúcia, acaba por ficar sozinha e tem nela a responsabilidade de guardar os segredos que Nossa Senhora lhe contou. A aparição de Fátima acaba por isolá-la de praticamente toda a gente, inclusive da mãe. A igreja é a responsável por tamanha reclusão. Pergunto-me porquê.

Imagem retirada da internet
Se estava céptica, mais ainda fiquei ao deparar-me com o facto de que nesse ano (1917), a Nossa Senhora apareceu a mais pastorinhos, noutros pontos do país. Porquê ter a igreja escolhido Fátima para o culto? Talvez porque áquele local tenha ocorriodo milhares de pessoas para ver o chamado "milagre do sol"?
Se inicialmente a igreja não acreditava nos pastorinhos, pouco tempo depois acabaram por aceitar e acreditar neles...
«Não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima que se impôs à Igreja.» cardeal Cerejeira

Capela de Nossa Senhora da Aparecida, Folhada
Imagem retirada da Internet
Fiquei ainda a saber que numa freguesia, na minha terra Natal, de Marco de Canaveses também Nossa Senhora apareceu a 3 pastorinhas (coincidência?) no dia 13 de Maio (ainda mais coincidências), mas do ano de 1757, dois anos após o terramoto de Lisboa. 
Naquele lugar foi edificada uma Capela em homenagem às aparições que tal como em Fátima, movimentaram inúmeras peregrinações ao local.
O que pensar disto?
Se tivesse sido numa outra altura será que também estas pastorinhas seriam alvo de devoção?

Para quem tem dúvidas em relação ao que se passou na altura, ou apenas curiosidade, este é um livro a ler.
Recomendo. 


segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Se Isto é um Homem - Primo Levi [Opinião]

Título: Se Isto é um Homem
Autor: Primo Levi
Editor: Dom Quixote
Páginas: 180

Sinopse:
Na noite de 13 de Dezembro de 1943, Primo Levi, um jovem químico membro da resistência, é detido pelas forças alemãs. Tendo confessado a sua ascendência judaica, é deportado para Auschwitz em Fevereiro do ano seguinte; aí permanecerá até finais de Janeiro de 1945, quando o campo é finalmente libertado.
Da experiência no campo nasce o escritor que neste livro relata, sem nunca ceder à tentação do melodrama e mantendo-se sempre dentro dos limites da mais rigorosa objectividade, a vida no Lager e a luta pela sobrevivência num meio em que o homem já nada conta.
Se Isto é um Homem tornou-se rapidamente um clássico da literatura italiana e é, sem qualquer dúvida, um dos livros mais importantes da vastíssima produção literária sobre as perseguições nazis aos judeus.

A minha opinião:
Uma verdadeira desilusão em relação à leitura de Se Isto é um Homem de Primo Levi. 

Sendo este um dos sobreviventes do Holocausto, que tem publicado os mais variados livros sobre o mesmo, já há imenso tempo que desejava ler a sua obra-prima. Finalmente consegui fazê-lo, mas o livro não me arrebatou como estava à espera. 

Comparativamente com outros livros sobre a temática do Holocausto que tenho lido ao longo dos anos, este não trouxe nada de especial e não criei a empatia que desejava com o autor, nem sequer com a história deste no campo de concentração de Auschwitz. 

O livro relata o dia em que Levi entra em Auschwitz, até à sua libertação, praticamente um ano depois pelos russos, mas não senti grandes emoções por parte do autor. Será a frieza inerente a uma situação destas, algo esperada?

O certo é que os relatos impressionam, as histórias sucedem-se, o que Levi passou naqueles meses que resultaram neste livro é inimaginável. Primo Levi foi um dos 20 italianos que sobreviveram ao campo de concentração. 630 desses italianos que estavam por lá acabariam por morrer... Mas o livro não passa disso, de relatos, qual documentário. Eu preferia que houvesse uma história por detrás de todos estes relatos, uma história mais marcante entre Levi e outros homens que conviveram com ele. Não foi isso que aconteceu, ou pouco foi relatado. 

Posto isto, não fiquei curiosa para ler outros livros de Levi e, infelizmente, não recomendo este livro, a não ser para os leitores que não levem demasiadas expectativas à sua leitura. 

Vale pelas frases.

Excertos:
Das quarente e cinco pessoas do meu vagão, só quatro tornaram a ver as suas casas, e o meu vagão foi, de longe, o mais afortunado. 

Num instante, por intuição quase profética, a realidade foi-nos revelada: chegamos ao fundo. Mais baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar . Só bem mais tarde, pouco a pouco, alguns de nós entenderam algo da macabra ciência dos números de Auschwitz, na qual se resumem as etapas da destruição do judaísmo europeu. Aos velhos do Campo, o número revela tudo: a época da entrada no Campo, o comboio com o qual se chegou e, consequentemente, a nacionalidade. 

Ai de quem sonha! O instante no qual, ao despertar, retomamos consciência da realidade, é como uma pontada dolorosa. Isso, porém, raras vezes nos acontece, e os nossos sonhos não duram. Somos apenas uns animais cansados.

Acordar é regressar do nada.

Como poderíamos pensar em não ter fome? O Campo é a fome; nós mesmos somos a fome, uma fome viva.

Aqui é assim. Sabem como é que dizemos "nunca" na gíria do Campo? Morgen fruh: amanha de manhã. 



Depois de meses e anos de Campo de Concentração, não são batatas que podem devolver a força a um homem. 

Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz. 


quinta-feira, 12 de maio de 2016

O Pai - Anders Roslund & Stefan Thunberg [Opinião]

Título: O PAI
Autor:
Anders Roslund & Stefan Thunberg
N.º de Páginas: 520
PVP: 21,90€

Um thriller intenso e inquietante inspirado na extraordinária história real de três irmãos – os irmãos de um dos autores deste romance, Stefan Thunberg - que cometeram dez audaciosos assaltos a bancos na Suécia, em apenas dois anos.
Nunca nenhum cometera um crime.
Todos tinham menos de vinte e quatro anos.
Transformaram-se nos criminosos mais procurados da Suécia.
O seu vínculo foi forjado enquanto cresceram sob o jugo de uma família violenta.
E do homem que os moldou dessa forma: o pai.
Quando o seu incrível percurso chegou ao fim no turbilhão da imprensa internacional, todos mudaram para sempre como indivíduos e como família.
Baseado numa série de acontecimentos violentos e macabros que marcaram a Suécia na década de 1990, o livro é a história de um destino comovente de uma família, do amor que une três irmãos e da complexa relação entre pais e filhos.
O livro é narrado a dois tempos: no passado, onde podemos perceber a dinâmica familiar, assim como a tirania e influência negativa do pai, e no presente, onde decorrem os assaltos.
A fuga durante meses do trio de assaltantes que ludibriava a polícia acaba com a sua prisão pelo detective John Bronk e com uma pena exemplar na história da Suécia.

A minha opinião: 
Baseado na história verídica de Stefen Thunberg, um dos autores do livro, O Pai foi uma leitura aliciante entre o saber a história de um pai violento e de três filhos que se transformam em assaltantes de bancos e causaram o terror na Suécia durante dois anos, na década de 90.

Narrado entre dois espaços temporais completamente diferentes, (infância dos assaltantes e presente), vamos percebendo toda a violência que padeceram estes três miúdos, assim como a mãe destes, que na última tareia que sofreu quase que morria às mãos de um homem que abusava da bebida e da violência. Mesmo depois de fugir de casa, a pobre mãe era perseguida pelo marido que, fazendo-se acompanhar por um dos filhos, tentou incendiar a casa onde morava com o pai desta, para que morresse queimada. Tudo isto afecta as jovens crianças, que acabam por viver sempre na violência e fazem dela um modo de vida. 

Habituados a defenderem-se usando a força desde muito novos (os autores descrevem muito bem como o pai os ensinou a defenderem-se de uma tentativa de bullying na escola), tudo dava a entender que Leo, Felix e Vincent não seguissem os passos do pai. No entanto, a vida dá uma volta e, juntamente com o amigo de infância de um dos irmãos, Jasper, entram numa onda de assaltos a carrinhas de valores e depois a bancos de tal forma bem feitos que ninguém parecida saber de quem se tratavam.

Porém, nem sempre a violência gera violência e Stefan soube, a um dado momento, dizer não e acabar por não participar em nenhum destes assaltos, acabando por ser um mero espectador de toda a trama.

Apesar de não vir explicado no livro, daí ser parte dele ficção, no final da obra vem uma entrevista entre Anders Roslund jornalista que se encarregou do caso na altura e o próprio Stefan Thunberg, que ajudam a perceber um pouco melhor da história do "Gangue Militar", nome que a imprensa atribuiu ao grupo de assaltantes, seus irmãos.

A realidade cruza-se com a ficção, mas isso não faz com que o livro perca o interesse, muito pelo contrário. Faz-nos questionar certas coisas, é certo, mas dá-nos curiosidade em querer saber mais.

Sou fã de histórias verídicas e se bem escritas e aliadas a factos policiais ainda melhor. São ingredientes perfeitos para darem um bom livro, que culminará num filme. Os direitos do livro já foram comprados pela Dreamworks e a realização ficará a cargo de Steven Spielberg. 




quinta-feira, 31 de março de 2016

Vozes de Chernobyl - Svetlana Aleksievitch [Opinião]

Título: Vozes de Chernobyl
História de um desastre nuclear
Autor: Svetlana Aleksievitch
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 336
Editor: Elsinore
PVP: 17,69€

Sinopse
Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.
Prefácio de Paulo Moura e tradução de Galina Mitrakhovich.

A minha opinião: 
O reator nuclear de Chernobyl explodiu a 26 de abril de 1986. A pequena localidade e num raio de 40 quilómetros toda a população foi atingida pelas radiações mortíferas sem que disso soubessem. As autoridades soviéticas sempre tentaram esconder a gravidade do sucedido e mandaram, para "abafar" o caso, milhares de homens para o local. Resultado: mais mortes. 

"A quantidade de mentiras com que Chernobyl está associado na nossa mente só é comparável com a que houve em 1941. Sob Estaline." pag. 211

Svetlana Aleksievitch dá voz a mais de 500 pessoas, vítimas de Chernobyl, entre bombeiros, habitantes locais, crianças (os mais comoventes), idosos que não desejavam sair da terra, mulheres dos bombeiros que acorreram ao local no dia em que o reator explodiu, entre muitos outros.
Vozes de Chernobyl é o sofrimento colectivo do povo ucraniano. Que, sem saber da gravidade da situação, continuou a fazer a sua vida depois da explosão do reator. Que fez com que estóicos bombeiros e homens, através de helicópteros, e sem quaisquer protecção, acorreram para o local para minimizar o desastre. As consequências que advieram daí foram catastróficas.  Os primeiros a sofrer seriam os bombeiros: 

"As mucosas caíam em camadas, em películas brancas. A cor do seu rosto... A cor do seu corpo... Azul... Vermelho... Cinzento-acastanhado. E tudo aquilo era tão meu, tão querido! É tão impossível contá-lo! É impossível escrevê-lo! E até vê-lo!
... A única coisa que me salvou foi que tudo aconteceu tão depressa, que não houve tempo para pensar, não houve tempo para chorar." pag. 31

Caters News Agency
Depois de terem de dar a mão à palmatória e reconhecer o desastre nuclear, foram evacuadas mais de 130 mil pessoas, tendo inclusive a cidade de Pripyat ficado completamente abandonada. No entanto, não foi fácil mandar embora as pessoas que sempre viveram naquela zona, Tirar as pessoas do seu espaço, da casa em que moraram sempre. "Mesmo contaminada com radiação, ainda assim é a minha terra natal. Não há outro lugar onde nos queiram. Até um pássaro gosta do seu ninho..." pag. 71

Mais tarde, a localidade fantasma começava a ser povoada pelos refugiados, pessoas de outras etnias, vindos de outros cantos da URSS, que estava cada vez mais desunida. 

"«Seria capaz de trazer os filhos para onde há peste ou cólera?» Bom, peste e cólera... Mas esse medo que há aqui, eu não o conheço. Não vejo. Não está na minha memória... 
Tenho medo é das pessoas. De homens com armas." pag. 94

Vozes de Chernobyl não é um livro de leitura fácil. Mas também não é intenção da autora sê-lo. Num trabalho jornalístico impressionante, a Prémio Nobel da Literatura 2015 mostra a realidade dura da população de Chernobyl. Desprezada logo após a explosão do reator pelo medo da contaminação, pelo aspecto exterior diferente dos demais, mas desprezada ainda na actualidade por parte das autoridades responsáveis. 
Wikipédia

A verdade, a voz de todos os habitantes de Chernobyl estão a salvo nas mãos de Svetlana. Há que lê-la. 

"«Quem quer maçãs? Maçãs de Chernobyl?» Alguém aconselha: «Ó mulher, não digas que são de Chernobyl que ninguém tas compra.» «Não se preocupe! Então não compram! Há quem compre para a sogra, há quem compre para o chefe.»" pag. 78

"Voltámos para casa. Tirei tudo, despi toda a roupa que usava lá e atirei-a para a conduta de lixo. Quanto ao barrete, dei-o ao meu filho pequeno. Ele pedira-mo muito. Andava de barrete sem nunca o tirar. Dois anos depois foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral." pag. 104



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Rapariga Dinamarquesa - David Ebershoff [Opinião]

Título: A Rapariga Dinamarquesa
Autor: David Ebershoff
N.º de Páginas: 328
Editor: Porto Editora
PVP: 17,70€

Sinopse
Inspirada na história verídica do pintor dinamarquês Einar Wegener e da sua esposa americana,A Rapariga Dinamarquesa traz-nos um retrato terno e comovente sobre um amor que desafia todos os limites.

Tudo começa com um simples pedido. A modelo que Greta está a pintar cancelou a sessão agendada, na altura em que faltam apenas alguns pormenores para a conclusão do quadro. A pintora pergunta então ao marido se se importa de calçar umas meias e sapatos de senhora por alguns momentos, para ela poder finalizar os últimos detalhes.
Este pequeno favor irá trazer consigo uma série de transformações à vida de Einar, que descobre em si uma identidade até então desconhecida. Com elas, começa uma das mais apaixonantes e invulgares histórias de amor do século XX.

A minha opinião:
Logo que saiu em 2010 que este livro que me tinha ficado debaixo de olho. Gosto de livros baseados em factos reais e a história do pintor Einar Wegener, da qual eu não conhecia nada, cativou-me pela sinopse. Depois, outros livros foram saindo e este livro foi ficando na wishlist e acabou por não sair de lá até agora. A chegada aos cinemas do filme baseado no livro foi o mote para que me viesse parar às mãos. Desde já devo agradecer à gentileza da Porto Editora que prontamente acedeu ao meu pedido e mo enviou para que pudesse ler antes de ter a curiosidade de ver o filme.

Einar Mogens Wegener, ficou conhecido por ter sido, muito provavelmente o primeiro transexual a submeter-se a uma cirurgia genital, tendo abandonado definitivamente o seu nome de baptismo após a realização dessa cirurgia a adoptado legalmente o nome de Lili Ilse Elvenes e parado de pintar. Einar era hermafrodita ou tinha uma sexualidade intermédia e, desde criança, tinha sentido a necessidade de mudança. 
Enquanto adulto, a mudança acentua-se sobretudo quando a mulher lhe pede para que se calce umas meias e pose para ela. Aí Einar passa a ser Lili, o seu alter-ego. 
Gerda Wegeder, a sua mulher, tem um papel preponderante na vida de Einar. Uma mulher muito avançada para a época, anos 20, que apesar de gostar imenso do seu marido, acompanha-o em todo o processo de transformação, levando-o a vários médicos que o aconselham, muitos de forma errada, sobre o que poderá ter. Talvez por Gerda estar inserida no meio artístico (foi também pintora, desenhista e ilustradora) fez com que visse a diferença de uma outra forma. 

De referir que no final do livro o autor menciona que A Rapariga Dinamarquesa é uma obra de ficção e que apenas a história de Einar é baseada em factos reais. Todas as outras personagens são inventadas. O que acaba por ser um grande balde de água fria para quem viveu tão intensamente o livro como eu. Se a história de Gerda era inventada o autor poderia pelo menos ter alterado o seu nome para não induzir em erro o leitor, pelo menos na minha perspectiva. David Ebershoff muda a nacionalidade de Gerda para Californiana, enquanto na realidade ela é Dinamarquesa e, de facto, pouco fala sobre ela. Aliás, mostra-a como uma pintora menor, o que na realidade não se traduz. Não a mostra com uma pintora erótica, nem como uma possível lésbica, como mais tarde vim a pesquisar.
À parte isso, adorei a caracterização que o autor fez de Einar, um homem triste num corpo que não era o seu, mas ao mesmo tempo obstinado para alcançar o seu sonho, o de se tornar uma mulher. 
Recomendo. 

  

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Últimos Ritos - Hannah Kent [Opinião]

Título: Últimos Ritos
Autor:
Hannah Kent
Páginas: 320
Editor: Saída de Emergência
PVP: 17,76€

Sinopse
Na agreste paisagem islandesa, Hannah Kent traz à luz dos nossos dias a história de Agnes que, acusada do brutal assassínio do seu anterior amo, é enviada para uma quinta isolada enquanto aguarda a sua hora final.
Apavorados com a perspetiva de virem a albergar uma assassina, a família que a acolhe evita Agnes nas primeiras abordagens. Apenas Tóti, um padre designado para acompanhar Agnes nesta última caminhada e ser o seu guardião espiritual, procura compreendê-la. Mas assim que a data da morte de Agnes se avizinha, a mulher e filhas do lavrador descobrem que há uma segunda versão para a história brutal que ouviram.
Fascinante e lírica, Últimos Ritos evoca uma existência dramática num tempo e espaço distantes, dirigindo-nos a enigmática pergunta: como pode uma mulher suportar a mágoa e a injustiça quando a sua vida depende das histórias contadas pelos outros?


A minha opinião: 
Agnes Magnúsdóttir foi a última pessoa a ser executada na Islândia, condenada pela partipação no assassinato do seu antigo amo. Enquanto aguarda pela sua execução é enviada para uma quinta isolada para ajudar uma família de lavradores, que vivem única e exclusivamente do trabalho na terra, que apesar de contrariados com a sua chegada, acabam por descobrir a sua versão na história. Uma versão completamente diferente daquela que lhes foi apresentada.



Pouco se sabe sobre este crime, mas Hannah Kent soube criar uma história intensa sobre este crime real, mostrando ao mesmo tempo ao leitor uma Islândia fria, rude, agrícola. Contada do ponto de vista de três personagens: da própria Agnes, do reverendo que "confessa" Agnes nos últimos seis meses da sua vida, Tóti, e da própria família de acolhimento, vamos vendo a história sobre perspectivas diferentes, mudando, à medida que o tempo e a história avança de opinião sobre o próprio crime. Pessoalmente, nunca achei que Agnes fosse culpada, porque naquela época, 1830, e até antes, era normal, em quase todos os países, acusarem as mulheres de assassinatos e bruxarias. Em Portugal acontecia muito isso, mesmo no princípio do século XX, a pessoas que apresentavam doenças neurológicas como esquizofrenias eram facilmente identificadas como bruxas ou que tinha bruxedo.



Introspectiva, inteligente, fria, Agnes, muda completamente quando conhece Tóti. Nas suas visitas à casa de acolhimento da condenada os dois mostram uma cumplicidade que faz com que Agnes que se abra totalmente e conte a sua vida desde criança órfã a Tóti até chegar a empregada de Natan.

Últimos Ritos é um livro brilhante, embora de leitura morosa nos primeiros capítulos. 



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O Filho Perdido de Philomena Lee - Martin Sixsmith [Opinião]

Título: O Filho Perdido de Philomena Lee
Autor: Martin Sixsmith
N.º de Páginas: 488
PVP: 20,95€

Esta é a história de Philomena – e a história do seu filho Michael, que morreu antes de saber que a mãe nunca deixou de amá-lo e de procurar por ele, durante cinquenta anos. Trata-se de uma história de vidas marcadas pela hipocrisia e pelo secretismo, uma narrativa convincente e fascinante sobre amor e perda humanos – pungente, no fundo, porém redentora.

Enquanto adolescente na Irlanda de 1952, Philomena Lee engravidou e foi enviada para um convento – uma «mulher perdida, caída em desgraça».
Durante três anos depois do nascimento do filho, cuidou dele naquele lugar. Depois a Igreja levou-o de si e vendeu-o, a exemplo de inúmeras outras crianças, para a América, onde foi adoptado. Durante cinquenta anos Philomena procurou encontrar o filho mas nunca soube para onde foi. Sem saber que ele também a procurou toda a vida. O filho, Michael Hess, nome dado pela família adoptiva, tentou procurar a mãe, mas a Igreja negou-lhe informações, pois receava a descoberta do macabro negócio de venda de crianças. Michael foi um advogado de renome, conselheiro jurídico do presidente Bush, que acabou por morrer vítima de sida. Este escândalo, quando foi descoberto, abanou os alicerces da Igreja Católica e embora, tenham pedido publicamente perdão às mães a quem venderam os seus bebés, sofreram a vergonha também pública de não serem perdoados.
Soberbamente contada por Martin Sixsmith, esta é uma história de que irá tocar o coração dos leitores, pois confirma que, mesmo na tragédia, o laço entre uma mãe e um filho nunca pode ser quebrado e o amor encontrará sempre um caminho.


A minha opinião:
Ainda adolescente Philomena engravidou numa noite de loucura. O companheiro nunca viria a saber que esse momento amoroso viria a gerar uma criança porque Philomena entrou num convento e aí teve o seu filho, depois de horas de pura dor.

Durante três anos, Philomena e Anthony viveram no convento, embora o tempo que esta tinha disponível para estar com o filho era escasso. Trabalhava quase como uma escrava para benefício do convento, tinha de utilizar um nome falso, e não podia sequer falar com outras mulheres que passavam pela mesma situação.

No entanto, tudo seria temporário. Circulava entre elas, por murmúrios, que quando os bebés fizessem três anos, seriam dados para adopção e que as mães nunca amais teriam acesso a eles. Philomena fica em choque com tamanha revelação. E quando chega a sua vez de deixar Anthony não se conforma. Ela e outra colega, às escondidas, tinham feito um pacto em que não deixariam que os seus filhos fossem levados. Anthony e a sua amiga Mary davam-se como irmãos e as suas mães olhavam para eles embevecidos. Mas foi essa relação entre as duas crianças que ditaria também o seu destino. Uma americana que desejava muito ter uma menina (depois de ter três filhos), decide levar Mary com ela. Mas a afeição que viu entre os dois "irmãos" levou-a a querer ficar com Anthony também.


É aqui que mães e filhos são separados.

Contrariamente ao que pensava, O Filho Perdido de Philomena Lee retrata a vida de Anthony, (depois Michael) enquanto filho adoptivo dos americanos Marge e Doc, até à fase adulta e sucesso na política chegando a jurista principal do Comité Nacional Republicano no tempo de Reagan e Bush. Curiosamente viria a trabalhar para um partido completamente homofóbico, que condenava os homossexuais, não apostando na investigação da cura para a SIDA, que surgia naquela altura. Digo curiosamente porque Michael era homossexual nunca tendo escondido as suas preferências.

Apesar do sucesso em termos profissionais, Michael sentia-se sempre como um rejeitado, cuja mãe não o quis. Pensando sempre nas suas origens, tentou por mais do que uma vez descobrir a sua progenitora, indo por duas vezes à Irlanda a fim de a descobrir. A reserva por parte das freiras em não contar nada do passado nunca permitiu o reencontro dos dois.

Philomena só viria a reencontrar o filho, já morto, enterrado no convento onde nascera, como foi a sua vontade.





Confesso que gostaria de ter sabido mais um pouco sobre Philomena, como foi a sua vida até que decidiu partir para a descoberta do seu filho. Da vontade de, ao fim de 50 anos, contactar um jornalista para a ajudar a encontrar o filho perdido. Esse foi o único senão na história.

Resta-me ver o filme que deve ser também ele magnífico.

Excertos: 
"A absoluta e total solidão de todas as centenas de raparigas daquele lugar, e de outras nas mesmas condições por toda a Irlanda, estava gravada a ferro e fogo no rosto de Philomena. Mandadas embora por causa de um pecado que mal sabiam ter cometido, não passavam em muitos casos de meras crianças sujeitas a um castigo cruel e adulto."
"a Igreja pode ser sinónimo de salvar almas, mas também não era avessa a ganhar dinheiro."
"Todas as crianças enviadas para a América significam mais um donativo para a Igreja e um problema a menos para o Estado."
"O mais triste de tudo são os papéis de renúncia, os documentos sob os quais as mães eram obrigadas a abdicar dos seus filhos."
"A morte muda as coisas. Muda a maneira como pensamos acerca das pessoas; muda os vivos e muda os mortos."



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