quinta-feira, 31 de março de 2016 | By: Maria Manuel Magalhaes

Vozes de Chernobyl - Svetlana Aleksievitch [Opinião]

Título: Vozes de Chernobyl
História de um desastre nuclear
Autor: Svetlana Aleksievitch
Edição/reimpressão: 2016
Páginas: 336
Editor: Elsinore
PVP: 17,69€

Sinopse
Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.
Prefácio de Paulo Moura e tradução de Galina Mitrakhovich.

A minha opinião: 
O reator nuclear de Chernobyl explodiu a 26 de abril de 1986. A pequena localidade e num raio de 40 quilómetros toda a população foi atingida pelas radiações mortíferas sem que disso soubessem. As autoridades soviéticas sempre tentaram esconder a gravidade do sucedido e mandaram, para "abafar" o caso, milhares de homens para o local. Resultado: mais mortes. 

"A quantidade de mentiras com que Chernobyl está associado na nossa mente só é comparável com a que houve em 1941. Sob Estaline." pag. 211

Svetlana Aleksievitch dá voz a mais de 500 pessoas, vítimas de Chernobyl, entre bombeiros, habitantes locais, crianças (os mais comoventes), idosos que não desejavam sair da terra, mulheres dos bombeiros que acorreram ao local no dia em que o reator explodiu, entre muitos outros.
Vozes de Chernobyl é o sofrimento colectivo do povo ucraniano. Que, sem saber da gravidade da situação, continuou a fazer a sua vida depois da explosão do reator. Que fez com que estóicos bombeiros e homens, através de helicópteros, e sem quaisquer protecção, acorreram para o local para minimizar o desastre. As consequências que advieram daí foram catastróficas.  Os primeiros a sofrer seriam os bombeiros: 

"As mucosas caíam em camadas, em películas brancas. A cor do seu rosto... A cor do seu corpo... Azul... Vermelho... Cinzento-acastanhado. E tudo aquilo era tão meu, tão querido! É tão impossível contá-lo! É impossível escrevê-lo! E até vê-lo!
... A única coisa que me salvou foi que tudo aconteceu tão depressa, que não houve tempo para pensar, não houve tempo para chorar." pag. 31

Caters News Agency
Depois de terem de dar a mão à palmatória e reconhecer o desastre nuclear, foram evacuadas mais de 130 mil pessoas, tendo inclusive a cidade de Pripyat ficado completamente abandonada. No entanto, não foi fácil mandar embora as pessoas que sempre viveram naquela zona, Tirar as pessoas do seu espaço, da casa em que moraram sempre. "Mesmo contaminada com radiação, ainda assim é a minha terra natal. Não há outro lugar onde nos queiram. Até um pássaro gosta do seu ninho..." pag. 71

Mais tarde, a localidade fantasma começava a ser povoada pelos refugiados, pessoas de outras etnias, vindos de outros cantos da URSS, que estava cada vez mais desunida. 

"«Seria capaz de trazer os filhos para onde há peste ou cólera?» Bom, peste e cólera... Mas esse medo que há aqui, eu não o conheço. Não vejo. Não está na minha memória... 
Tenho medo é das pessoas. De homens com armas." pag. 94

Vozes de Chernobyl não é um livro de leitura fácil. Mas também não é intenção da autora sê-lo. Num trabalho jornalístico impressionante, a Prémio Nobel da Literatura 2015 mostra a realidade dura da população de Chernobyl. Desprezada logo após a explosão do reator pelo medo da contaminação, pelo aspecto exterior diferente dos demais, mas desprezada ainda na actualidade por parte das autoridades responsáveis. 
Wikipédia

A verdade, a voz de todos os habitantes de Chernobyl estão a salvo nas mãos de Svetlana. Há que lê-la. 

"«Quem quer maçãs? Maçãs de Chernobyl?» Alguém aconselha: «Ó mulher, não digas que são de Chernobyl que ninguém tas compra.» «Não se preocupe! Então não compram! Há quem compre para a sogra, há quem compre para o chefe.»" pag. 78

"Voltámos para casa. Tirei tudo, despi toda a roupa que usava lá e atirei-a para a conduta de lixo. Quanto ao barrete, dei-o ao meu filho pequeno. Ele pedira-mo muito. Andava de barrete sem nunca o tirar. Dois anos depois foi-lhe diagnosticado um tumor cerebral." pag. 104



2 marcadores:

João Miranda disse...

Gostei bastante da review. Certamente que será um livro duro e marcante. Espero ler ainda este ano.

Já agora, o meu canto:
http://crimeoucastigo.blogspot.pt/

Boas leituras!

Tita disse...

Olá!
Se já tinha ficado curiosa quando li a sinopse (na altura que foi publicado em Portugal), agora com a tua opinião tenho a certeza que é mesmo um livro excelente!
Beijinhos

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