domingo, 20 de novembro de 2016 | By: Maria Manuel Magalhaes

Longe de Manaus - Francisco José Viegas [Opinião]

Título: Longe de Manaus
Autor: Francisco José Viegas
N.º de Páginas: 480

Sinopse:
Depois de iniciar uma investigação sobre a morte de um homem desconhecido encontrado num apartamento dos arredores do Porto, Jaime Ramos é levado a percorrer caminhos que o transportam entre Portugal, o Brasil e a memória de Angola. Nesse triângulo vivem personagens solitárias que desaparecem sem deixar rasto e cujas biografias tenta reconstruir a partir do nada, socorrendo-se apenas da sua imaginação. Esse percurso transportará o leitor da Beirute do século XIX até ao coração da Amazónia e à Manaus contemporânea, do Porto a São Paulo, de Luanda ao Rio de Janeiro e ao Amapá, da guerra de Angola e da Guiné aos apartamentos vazios onde são recolhidos cadáveres, memórias e silêncios. Este cruzamento de geografias e de tipos humanos provoca alucinações no próprio narrador, que ora escreve em português de Portugal, ora em português do Brasil, e no investigador Jaime Ramos, que é obrigado a inventar histórias de perdição para que o seu mundo tenha algum sentido.

Reconstruindo a própria linguagem do romance policial, subvertendo as suas regras, escrito em tons e linguagens distintos, Longe de Manaus é o romance da solidão portuguesa, o retrato distante e desfocado de um país abandonado às suas memórias e ao seu desaparecimento.

A minha opinião:
Jaime Ramos e Isaltino são chamados a um apartamento em Santo Ovídio onde jaz um homem. Dentro do apartamento pouco encontram. E, se não fosse o passaporte, nem sabiam o nome da vítima: Álvaro Severiano Furtado.

O contrato de aluguer está em nome de uma empresa, Rio Grande Exportações. Não há telefone, nem fotos de família, telemóvel, nem papéis, carro, carta de condução. Aquele parece um apartamento onde não vive ninguém. Aquele parece um corpo que não pertence a ninguém...

Através de uma pequena pesquisa descobrem que Álvaro nasceu em Vila Flor e é divorciado... Tem uma irmã, desaparecida, que se tornou conhecida da polícia, por ter pertencido às FP-25.

Ramos, no seu jeito habitual, vai descortinando o que está por detrás de Álvaro Severiano Furtado. Descobre que têm um passado em comum, a guerra do Ultramar, e que os une pessoas que conheceram no passado. 

As investigações levam-no a Manaus, Amazónia, e a histórias paralelas que estão relacionadas entre si. Mas também passamos por Guiné, Angola e vários sítios do norte de Portugal.

Gosto de Jaime Ramos porque ele é uma personagem muito genuína. De tal forma que o imaginamos real. Jaime Ramos, o pequeno burguês portuense, mas que olha para o passado com saudade. Adepto do FCP vê em Cubillas um ídolo. Os seus livros respiram a norte, um norte que tanto me identifico.

Com a particularidade de ter dez capítulos escritos em Português do Brasil não é de admirar que este livro de 2009 tenha ganho o Prémio APE.
Muito bem escrito, com uma história envolvente, é difícil não gostar dos livros de Francisco José Viegas e do inspector portuense, sempre acompanhado por Isaltino.

Não são livros sanguinários, não são típicos livros policiais, mas são tão bons!!! 



"Os livros têm de estar sempre connosco, ao pé da mão. E alguns apagam-se quando estão ao pé de pessoas que não gostam deles. Tu também não gostas de livros."