sábado, 1 de outubro de 2016 | By: Maria Manuel Magalhaes

Guerra e Paz: Mark Twain e Rudyard Kipling presos e levados a tribunal popular

Foram identificados e detidos os suspeitos que desencadearam a invasão animal que ontem assolou o país. Mark Twain e Rudyard Kipling, ambos com um considerável historial de delinquência literária, foram formalmente acusados pelas autoridades de forjarem rãs saltadoras e mangustos assassinos. Os indícios recolhidos, milhares de livros amarelos, com a capa que se anexa como prova, serão agora presentes a tribunal popular. As audições vão ter lugar em todas as livrarias portuguesas.

É já possível proceder a uma primeira descrição da prova principal. É este Livro Amarelo, pintado à mão às quatro faces do miolo, contendo em primeiro lugar um texto, A Célebre Rã Saltadora do Condado de Calaveras, da autoria de Mark Twain. O livro fecha com outro texto, Rikki-tikki-tavi, assinado por Rudyard Kipling. Esses dois textos vêm no livro em edição bilingue, ou seja, em belíssimo inglês e na tradução portuguesa que lhes deu António Rodrigues.

O editor, Manuel S. Fonseca, escreveu as biografias dos dois autores e um texto, A Rã Saltadora e o Heróico Mangusto, que procura justificar a associação terrivelmente cúmplice destes dois textos, povoados de apostas fraudulentas, conflitos e crimes ecológicos perpetrados pela crua Natureza.

São 168 páginas de aventuras, perseguições a algumas gotas de sangue. Contêm, portanto, dois contos que estão longe de ser gémeos. O de Mark Twain é marcado por uma viva ironia. O de Kilpling, por um amável moralismo. São ambos contos próximos da oralidade: um de taberna, outra de charla familiar. Mark Twain escreve DE ouvido. Rudyard Kipling PARA o ouvido. Crime: neste tempo em que se diz que ninguém lê, são dois hinos à leitura.

Um conselho: não olhe para este livro com displicência. Destas páginas amarelas podem muito bem cair-lhe em cima uma rã saltadora ou um mangusto em fúria. Mas sejamos honestos, que interesse é que tem a literatura se não for um caso de vida ou de morte?