segunda-feira, 25 de agosto de 2014 | By: Maria Manuel Magalhaes

Quando o Ódio Matar - Carina Bergfeldt [Opinião]

Título: Quando o Ódio Matar
Autor:
Carina Bergfeldt
N.º de Páginas: 384
PVP: 18,85 €


Como fazer justiça poética com os males do mundo e ser bem sucedido é a ideia-base deste thriller. Uma ideia inspiradora que surgiu da série televisiva Dexter, cujo protagonista cometia crimes-perfeitos e saía sempre impune. Em Quando o Ódio Matar, a protagonista olha para trás e relembra todos os anos em que planeia matar o seu pai. Ao contrário de Dexter, é uma pessoa sofrida que deseja fazer do mundo um lugar melhor.

Com grande minúcia, uma mulher planeia a morte da pessoa que converteu a sua vida num inferno, o pai. O macabro plano toma forma num bloco-notas em que a capa tem umas apetitosas madalenas. Uma nota no frigorífico com as palavras: «Matar o papá» recorda-lhe qual o motor que impulsiona a sua vida.
Enquanto o plano parricida avança, é encontrado o cadáver de uma mulher num lago da cidade de Skövde. A inspectora Anna Eiler trabalha no caso, mas não é a única: duas jornalistas locais, Ing-Marie Andersson e Julia Almliden, realizam a sua própria investigação. As três têm razões pessoais para resolver o assassínio, as três escondem algo, mas só uma delas é capaz de preparar a sangue-frio um crime mais atroz do que aquele que pretende resolver.

A minha opinião:
"Os segredos significam tanto como a pessoa com a qual decidimos partilhá-los." pag. 10

2 de Janeiro de 2010 foi a manhã em que tudo mudou. Elisabeth Hjort foi dada como desaparecida há dois meses. Na manhã de dois de Janeiro o seu corpo aparece, congelado, nas margens do rio que banha a região de Skovde.

No que parece um aparente suicídio, já que a vítima atravessava uma fase de depressão aquando do seu desaparecimento, ao mesmo tempo que deixava uma nota final, os dados vão revelando que Elisabeth pode não ter atentado contra a sua vida. E os resultados da autópsia são reveladores...

Ao mesmo tempo que acompanhamos a investigação da morte de Elisabeth vamos também vivendo com um obsessão de uma das protagonistas (que só é revelada no fim do livro). O protagonismo é partilhado por três mulheres completamente diferentes, mas cujo objectivo é o mesmo: descobrir o assassino de Elisabeth. Ing-Marie Andersson e Julia Almliden são duas jornalistas locais que tentam a todo o custo descobrir pistas sobre o crime, aumentando assim o número de vendas do jornal onde trabalham e Anna Eiler a inspectora encarregue de descobrir o caso. De referir que o papel das duas jornalistas em resolver o crime é muito mais relevante do que o da própria inspectora que deixa passar pistas extremamente importantes para o caso. Arrisco em dizer que se não fossem as jornalistas o assassino nunca chegaria a ser apanhado. Portanto, o protagonismo de Anna Eiler é fraquinho, servindo apenas para ser a suspeita da tal obsessão criada no início do livro.

E voltando à obsessão propriamente dita acaba por ser o cerne do livro, pelo menos para mim. Tudo bem que o leitor pretende saber quem matou Elisabeth, mas há medida que vamos conhecendo a vítima, a "pena" que podíamos nutrir por ela vai-se desvanecendo a ponto de se desejar que o vingador nem sequer seja descoberto.




Uma das protagonistas planeia, incansavelmente, a morte do seu pai, um homem asqueroso que usava de violência física para com as suas três mulheres e psicológica para os filhos. Fã de séries como Dexter ou CSI, a mulher faz uma lista, no seu bloco de notas de madalenas, de como poderá matar o pai, sem deixar rasto, mas deseja fazê-lo sofrer antes de lhe dar o golpe final. E é essa morte que desejamos que dê certo. Neste ponto, acabamos por apoiar a protagonista na sua intenção. De facto, o ódio pode matar e isso prova que todos nós somos um assassino em potência.

Para reforçar ainda mais o ódio que uma das protagonistas nutre pelo progenitor, o livro é ainda enriquecido por alusões ao passado, de forma a ficarmos a conhecer ainda melhor o déspota que é Valdemar, um homem rico em termos monetários, mas pobre nas suas relações.

Carina Bergfeldt criou um thriller psicológico forte, intenso, e muito criativo, que não se consegue parar de ler.

Excertos:
"Durante muito tempo não consegui compreender, por mais voltas que lhe desse, porque razão queria o meu pai ter tantos filhos.
Se era evidente que não gostava de crianças..." - pag. 43
"Mostre-me uma pessoa sem desgostos e eu mostrar-lhe-ei um mentiroso." - pag. 71