terça-feira, 20 de maio de 2014

Biografia Involuntária dos Amantes - João Tordo [Opinião]

Título: Biografia Involuntária dos Amantes
Autor: João Tordo
Edição/reimpressão: 2014
Páginas: 424
Editor: Alfaguara Portugal
PVP: 16,50€

Sinopse:
Numa estrada adormecida da Galiza, dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.
A viagem de descoberta começa com a leitura de um manuscrito da autoria da ex-mulher do mexicano, Teresa, que morreu há pouco tempo e marcou a vida do poeta como um ferro em brasa. O narrador não poderia adivinhar (porque nunca podemos saber as verdadeiras consequências dos nossos actos) que a leitura desse manuscrito teria o mesmo efeito sobre a sua vida.
As páginas escritas por Teresa revelam a sua adolescência no seio de uma família portuguesa contaminada pela desilusão: um pai ausente e alcoólico, um tio aventureiro e misterioso, uma mãe demasiado protectora. Mas o que ressalta com maior vivacidade daquelas páginas é o relato enternecedor do seu primeiro amor, ao mesmo tempo que começam a insinuar-se na sua vida realidades grotescas e brutais. Confrontado pela primeira vez com a suspeita dessa terrível possibilidade, Saldaña Paris mergulha numa depressão profunda. Determinado em libertar o amigo do poder corrosivo do mal, o nosso narrador compõe então, peça a peça, a biografia involuntária dos dois amantes. Uma biografia que passa pelo desvelar do passado, para que este não contamine irremediavelmente o futuro.

A minha opinião: 
Sétimo romance de João Tordo e segundo que leio do autor (o primeiro foi Anatomia dos Mártires), Biografia Involuntária dos Amantes foi um dos melhores livros lidos este ano.
O atropelamento de um javali, em plena autoestrada quando o narrador, que nunca saberemos o nome, e Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano conhecido à pouco tempo, vão em direcção a Santiago de Compostela vai despoletar a história que está por detrás da tristeza do poeta mexicano.

E a história, amorosa, vai trazer um segundo narrador, Teresa, uma personagem forte, um pouco leviana, e avançada de mais para um Portugal dos anos 80, num bairro lisboeta onde a pobreza e trabalhos clandestinos caminham de mão dada.

A narração deste novo livro de Tordo está entregue pela primeira vez a uma voz feminina, que "fala" com o leitor através de uma espécie de diário pessoal, talvez como uma espécie de biografia, em que conta parte da sua atribulada vida àquele que foi o seu marido.

Sem coragem para o ler, Saldaña Paris pede ao seu amigo mais recente, um professor universitário em Compostela, que o leia por ele. E é aqui que tudo despoleta. O narrador não consegue livrar-se de uma personagem tão misteriosa e decide partir para uma aventura que o levará ao Canadá e a Portugal, a fim de concluir a história de uma Teresa que já não se encontra no mundo dos vivos. E o que descobre poderá não ser do agrado de Saldaña Paris. 
Completamente fragilizado por um amor fracassado, Saldaña Paris é um homem deprimido, desde tenra idade. Orfão de mãe, com um pai austero, que deseja que seja um homem de sucesso, um advogado, e não o homem em que se tornou. 
Professor universitário, com um programa de rádio com poucas audiência, uma ex-mulher linda que partiu para uma outra vida, mais feliz, e uma filha adolescente problemática, o narrador e "investigador" é um homem sem objectivos futuros. Agarra-se a esta história para se livrar da sua própria vida, enfadonha e triste, e acaba por se envolver em demasia.

Pleno de personagens fictícias baseadas em pessoas reais (o poeta Saldaña Paris e até o próprio João Tordo que se personifica na personagem de Jaime Toledo, o primeiro grande amor de Teresa), Biografia Involuntária dos Amantes demorou cerca de um ano e meio a ser escrito e passou por três locais diferentes: na parte sul de Portugal, em Bión (Galiza) e em Xangai. 
Terá sido este o motivo para o grande livro em que se transformou? Não sei. No entanto, este é um livro soberbo que qualquer leitor e amante de livros não poderá deixar de ler.

Recomendo.


Excertos: 
"E  não nos arrependemos de quase tudo? Sobretudo das coisas que deixamos escritas, as que hão-de nos sobreviver. Os actos nunca; esses passam, um dia destes já ninguém se lembra. Mas se somos suficientemente estúpidos para deixar alguma coisa no papel, então o nosso caso muda de figura." (pag. 44)
"O problema das palavras não é aquilo que podem ajudar a recordar. É aquilo que podem ajudar a destruir." (pag. 102)
"Dedica-te a amar as coisas certas em vez das coisas erradas." (pag. 244)
"Afinal de contas, os escritores vivem do ego, ou não é assim? Querem ser lidos e que digam bem deles. Ou que digam mal ou que digam alguma coisa. Não, senhor. Eu nunca andei cá para alimentar vaidades" (pág. 253)
 


7 comentários:

Maria Maia disse...

Olá,

Como consegue ler tantos livros?! Eu ainda vou no meu décimo terceiro livro desde o inicio do ano.

Parabéns pelo blogue.

Maria Manuel Magalhaes disse...

Olá Maria,

Felizmente tenho um trabalho que me permite ler nos tempos em que etsou mais parada. E depois, aproveito todos os momentos me que posso para ler ;)
Os livros acompanham-me para todo o lado.

Obrigada ;)
Boas leituras

Dora disse...

Este é dos poucos dele que não li e as criticas são muito boas. Estou tentada...

Maria Manuel Magalhaes disse...

Este foi o que mais gostei dele.

Dora disse...

Melhor que "As 3 Vidas"?

Maria Manuel Magalhaes disse...

Não li esse :(

Dora disse...

Li "As Três Vidas" no Verão de 2012 e fiquei deslumbrada com este romance. Devorei-o em poucos dias e embrenhei-me tanto na saga desta família que não conseguia deixar de ler.
Conta a história de "António Augusto Milhouse Pascal, um velho senhor que se esconde do mundo num casarão de província, acompanhado de três netos insolentes, um jardineiro soturno e um rol de clientes tão abastados e influentes como perigosos e loucos. São estes mistérios que o narrador - um rapaz de família modesta - procurará desvendar durante mais de um quarto de século, não podendo adivinhar que o emprego que lhe é oferecido por aquela estranha personagem se irá transformar numa obsessão que acabará por consumir a sua própria vida.
Passando pelo Alentejo, por Lisboa e por Nova Iorque em plenos anos oitenta - época de todas as ganâncias - e cruzando a história sangrenta do século XX com a das suas personagens, As Três Vidas é, simultaneamente, uma viagem de autodescobertas através do «outro» e a história da paixão do narrador por Camila, a neta mais velha de Milhouse Pascal, e do destino secreto que a aguarda; que estará, tal como o do avô, inexoravelmente ligado à sorte de um mundo que ameaça, a qualquer momento, resvalar da corda bamba em que se sustém."
Nesse dia tomei a decisão de ler a obra toda do João Tordo.

Li "O Bom Inverno" e depois "O Ano Sabático". Ambos foram uma desilusão, pois não senti o mesmo, não criei empatia com as personagens e não achei nada de especial.

Esta semana comecei a terminei "A Biografia Involuntária dos Amantes" e confesso que me custou acabar. Estou deserta que o livro chegasse ao fim porque achei-o tão chato em certas partes.


Estou relutante em ler mais alguma coisa do João Tordo porque confesso que estou desiludida...